O jogo das escondidas

Eu estava num centro comercial, numa loja de roupa, e vi uma mãe aflita à procura do filho pequeno, porque ele estava a brincar e a certa altura desapareceu. Escondeu-se dentro dum armário cheio de calças de ganga e, por mais que ela o chamasse, manteve-se quieto, em silêncio. 

– Viu-o? – Perguntou ela à empregada, depois de ter ido duas vezes ao corredor e outras tantas ao provador, completamente atarantada, coração na mão, alma na boca – eu sei, eu senti. A vida é solidão e a maior parte dos dias são tristes.

A empregada encolheu os ombros e, sem abrir a boca, disse-lhe com os olhos:

– Não sei do que está a falar.

E, de facto, não sabia – eu sei, eu senti. Há um adeus permanente no ser das pessoas e o sonho morre constantemente no fundo de cada um. A rapariga estava tão distraída a dobrar peças de roupa, como se aquilo fosse uma arte e ela uma máquina, com tanta entrega, tanta devoção – eu sei, eu senti – pelo que era incapaz de reparar na mecânica da tragédia a partir do ponto de vista de quem entrava na loja. 

A mãe, mulher jovem e bonita, ficou desnorteada e atravessou sozinha o mundo inteiro dentro da loja – eu sei, eu senti – tomada por um susto extremo e violento, como só acontece diante do amor incondicional, talvez o único que vale a pena viver, o único que faz sofrer e ajuda a morrer, mas ninguém o entende – as coisas são como são, as palavras também – nunca ninguém entende, esse amor incondicional, nem para o bem, nem para o mal, tão pessoal e total – eu sei, eu senti.

No decurso da viagem à roda da loja de roupa, a mãe olhou duas vezes para mim – o vagabundo – mas não me dirigiu a palavra e eu também não tinha nada para lhe dizer, pois o miúdo sumira-se sem mais nem menos, tocado por uma magia pura e exasperante que me fez recordar as vezes em que perdi paixões pelo caminho e foram algumas, perdidas com a mesma simplicidade intrigante com que se perde o elástico de amarrar o cabelo – eu sei, eu senti. Mas isto não faz sentido – é muita ligeireza da minha parte, para tão grande profundidade da parte dela.

Seja como for, eu estava a viver um dia inócuo e comecei a pensar como um menino de sua mãe. Uma vez, na brincadeira, escondi-me num sítio qualquer e depois perdi-me. Agora, ando à procura de mim para me salvar e não me encontro, não me encontro. Habituei-me às vertentes da solidão e tornei-me nómada dentro de mim. Às vezes, digo coisas que ninguém entende, coisas estrambólicas, sem sentido. Outras vezes, começo a falar como um santo e acabo como um monstro. Valho tudo e não valho nada. Ao pôr-do-sol, faço sempre a mesma promessa:

– Nunca mais abro a boca para dizer quem sou.

Por fim, a mulher encontrou o filho, metido no armário, no meio das calças de ganga. Ela estava bastante nervosa, bastante irritada – eu sei, eu senti – e falou-lhe assim:

– Tu nunca mais me faças isso!

O miúdo fez beicinho e eu pensei não desprezes o meu sentir.

– A mãe ficou muito preocupada contigo! – Disse ela.

Agarrou-o pela mão e eu pensei não desprezes o meu sentir também. Depois, foram-se embora no embalo do amor incondicional, o único que vale a pena viver, sofrer e morrer – eu sei, eu senti.

A loja ficou vazia. Só eu e a empregada lá dentro – as unhas dela compridas, coloridas, postiças – a dobrar roupa com tanta devoção, como se fosse uma arte, e eu pasmado a ver aquilo, a arte de dobrar roupa.

Duarte Caires escreve
à quinta-feira, todas as semana