De língua de fora

Eu tinha 7 anos quando levei a maior reprimenda da minha infância. Pensando bem, talvez não tenha sido a maior, mas foi sem dúvida aquela que mais me marcou. De que me lembre, foi a primeira vez que transgredi com a plena consciência do que estava a fazer. E com uma satisfação secreta que fazia valer a pena as consequências.

Por essa idade, eu andava com a mania de deitar a língua de fora em resposta a situações ou pessoas que me desagradavam. Como era sempre repreendida quando o fazia, comecei a fazê-lo às escondidas e esperando o momento em que já ninguém estava a olhar para mim. E safei-me bem por uns tempos.

Até o belo dia em que a minha mãe mandou-me fazer qualquer coisa que eu claramente não queria fazer. Quando ela virou as costas, deitei-lhe a língua de fora e juntei ao gesto uma careta em que os meus olhos convergiam para o nariz. Para minha pouca sorte, nesse dia ela voltou atrás e fui apanhada em flagrante.

Não tendo como negar a asneira, só me restava pedir desculpas, mas isso não foi suficiente. Talvez para tentar cortar o mal pela raiz, os meus pais deram-me um castigo duro e um tratamento duradouro: graças a este incidente descobri quantos dias eles conseguiam ficar chateados comigo: muitos!

Nesta semana voltei a pensar nesta história porque dei por mim, de máscara, a deitar a língua de fora a uma situação que me aborreceu. 

Há quem ache que dizer um palavrão bem alto e na hora certa alivia o stresse e põe-nos de novo no eixo. Eu, como já confessei, sempre fui mais adepta de caretas e línguas de fora para serenar os meus ânimos. Dependendo da pessoa e da ocasião, deitar a língua de fora pode ser encarado como um ato de rebeldia ou como uma simples brincadeira. Basta pensarmos na foto mais famosa de Einstein ou nas capas de discos de algumas bandas de rock.

Por estes dias, tal como tantas pessoas no mundo, estou a habituar-me ao uso diário da máscara social. Já que tenho que usá-la, e por tantas horas, que haja outras vantagens além da óbvias: a minha proteção pessoal e a dos outros.

Com a máscara posta, posso andar na rua e falar sozinha em voz baixa, ou até cantar, sem ninguém dar conta. Posso fazer um sorriso parvo ou um esgar de enfado, sem que o meu interlocutor os veja. Mas acho que o melhor de tudo é poder deitar a língua de fora.

E motivos não faltam.