Conhecer pela mão

Nestes tempos em que passou a ser proibido tocar nas pessoas, nas coisas. Proibido, em suma, tocar no mundo infetado de fora para dentro, lembro-me daquela tarde em que me pediste a mão. Era uma tarde de setembro, com aquele calor que sai de todos os cantos, mesmo dos lugares que parecem não existir. Ainda assim, o jardim estava fresco, acho eu. Há uma memória difusa do momento e ao mesmo tempo clara. Lembro-me das sombras, das pedras, do verde, mas lembro-me sobretudo do pedido e da sensação da tua mão na minha. Tínhamos falado durante um longo tempo, mas acho que só naquele momento travamos conhecimento profundo. Só pelo toque é possível conhecer, ou, mais do que isso, reconhecer. 

O toque que agora nos está vedado ergue uma barreira que nos priva desse conhecimento e desse reconhecimento. Amputados dessa possibilidade de tocar, ergue-se uma barreira que torna todos os nossos atos, atos à distância. E ninguém pode conhecer bem à distância. Ninguém pode conhecer bem deixando de lado o maior órgão de todos: a pele.

Ainda podemos ouvir, olhar, cheirar a uma distância segura, desde que não se inale o vírus. Mas não podemos tocar, aproximar a pele do mundo e dos outros. Uma amputação brutal esta que nos exige permanentemente um exercício de distância.

Asséticos, lavamos as mãos e as superfícies, onde, por desvio ou erro, as mãos possam ter tocado. Toda uma existência submersa em água, sabão, álcool gel e desinfetante. Toda uma existência sustentada no medo da infeção que pode ser transportada por outros de nós ou por uma superfície contaminada de uma morte que desconhecemos, de uma doença que tememos.

Agora que nos pedem para desconfinar, descobrimos, aos poucos, o quanto é difícil viver sem tocar. A quantidade de coisas que ficam à margem. Não tocar nas paredes, nos botões, não experimentar a roupa, e depois, se for preciso mesmo tocar em algo, desinfetar, apagar o rasto de nós nas coisas e das coisas em nós. Não tocar nos cães, nos gatos que não são nossos. Não tocar nas crianças que se aproximam sem o conhecimento do mundo estranho que lhes foi dado a viver.  Não tocar nos nossos apesar da saudade.

Depois tapar a cara quase toda com uma máscara. Esconder o sorriso, outra forma de tocar o mundo. 

Só agora parece que realmente percebemos o quanto o conhecimento depende do toque.  Desde logo o conhecimento e reconhecimento do outro, mas também o conhecimento das coisas, dos lugares. O conhecimento até de nós mesmos.

Como teria sido o dar a mão no jardim, esse reconhecimento tão nosso nestes tempos tão estranhos. Como teria sido o abraço na estação, a despedida na estação. Os longos passeios pela tua mão, os filmes pela tua mão, os livros pela tua mão, a luz doce da tarde.

Não sei quanto tempo vão durar estes atos à distância, este viver à distância. Espero que seja breve e sobretudo que não seja para sempre. Não gostaria de viver apenas com a memória do tempo em que conhecer também se fazia pela mão, ou sobretudo pela mão.

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas