Tenho medo!

A Pat disse vamos descer e eu respondi hoje não. Ela começou a rir e disse tens medo. Eu respondi não tenho medo, mas fica para outro dia. Ela não parava de rir e dizia tens medo e de que maneira. Eu fiquei sério e disse não tenho medo não senhor, mas fica para outro dia. E ela disse tu a mim não me enganas, tás aí cheio de medo, é o que é. Não tou não. Tás tás. Não não.

Olhei outra vez para baixo, uma altura do caraças. O teleférico desce a pique. Uma caixa minúscula suspensa num cabo, mas arruma um monte de gente. Quatro ou seis espanhóis entraram. Grande algazarra de vozes. Agora já vão a meio do percurso, pendurados no vazio, a caminho do calhau. O mar do Norte parte dali para o infinito cheio de vigor e o céu enche o espaço de luz e brilho. É um dia maravilhoso, no verão passado, aqui na ilha.

A Pat insiste:

– Vamos descer!

E eu:

– Hoje não. Fica para outro dia.

Ela a rir:

– Tens medo.

E eu:

– Não tenho medo de nada.

Mas, de facto, tenho medo de tudo. Sempre tive.

Quando era miúdo tinha medo do escuro e, por isso, experimentei sair algumas vezes durante a noite pela janela do quarto, em casa do meu avô, onde vivia com as tias. Eu esperava que elas adormecessem e depois abria a janela muito devagarinho. Pulava fora e ia até à esquina da casa, dava uma volta pelos arredores, sempre dentro da propriedade. O coração a bater forte. Pum-pum, pum-pum, pum-pum. Enfrentava sombras que pareciam gente, outras que eram mortos. Domesticava o meu vulto. Parava. Ficava quieto. (Ainda hoje faço o mesmo, em qualquer lugar aonde vá.) Sentia o escuro e o escuro entrava em mim. Depois o cão vinha ter comigo à falsa fé, rabo a abanar. Farejava-me os pés, denunciava-me à noite. E eu voltava para o quarto a tremer, exatamente como tinha saído de lá.

Ao rolar da infância, todos os medos e mais algum tomaram conta de mim, tais como a queda de satélites e outros corpos celestes, pedras e anjos também, bruxas e fantasmas, mísseis e bombas nucleares, aviões, óvnis, raios e dilúvios, guerras e naufrágios, fome e violência, o lado hostil do mundo, o fim do mundo, doenças e pragas, a morte límpida, e eu fugia para não ver o Marco quase a morrer sem encontrar a mãe ou Miguel Strogoff na hora em que o cegavam com uma lâmina incandescente ou o Janosik a caminho da forca, tudo real e a preto e branco como nos sonhos.

O medo brotava abundante e imparável de mil fontes. Era preciso ter cautela com tudo e mais alguma coisa, pelo que, visto à distância, até me parece impossível ter crescido livre e feliz com tanto à ’paz tem cuidado com isto, aquilo e aqueloutro. Todas as coisas – materiais e imateriais – estavam carregadas de perigo e pestilência e o pior de tudo eram as pessoas, os outros – veneno puro.

Eu, porém, pensava que só vendo, só indo, só sentindo é que podia vencer o medo e, por isso, nunca dei um passo na vida sem levá-lo comigo – o medo. Da esquina da casa do meu avô ao fundo de África, do colo da minha mãe aos braços da mulher que amo, da saúde que nunca me faltou à hipocondria que quase me arrasou, o medo anda sempre comigo, nunca me larga. Medo de tudo. De tudo e mais alguma coisa.

A certa altura, não sei bem quando, apercebi-me com redobrado espanto que, afinal, também eu fazia parte do medo dos outros, eu assim com o cabelo desgrenhado, a barba esgrouviada, a roupa pouco cuidada, eu sinistro, um gajo estranho, afasto os outros do caminho. Sigo em frente. Passo por ti. Se me olhas a fundo no fundo da alma ouves bem o segredo da minha existência – é o medo que me faz sair de casa, incluindo quarenta dias seguidos, é ele que me apresenta ao mundo – o medo.

A Pat diz:

– Falas, falas, mas não andas no teleférico.

E eu respondo:

– Hoje não, amanhã sim. Vais ver.