Fraquinhos

Há cerca de três semanas regressei ao meu trabalho que, entre outras tarefas, envolve algumas horas de atendimento ao público. E o que tenho constatado nas poucas horas que passo fora de casa é que somos fraquinhos.

Há quem se queixe de ter que trabalhar mais horas, outros de não ter trabalho.

Uns reclamam por ter de usar máscara em todos os lugares, outros por não ter encontrado uma única máscara à venda para poder usar naquele dia.

Já ouvi protestos de que o álcool-gel é muito espesso e demora a evaporar das mãos, em número igual àqueles que ouvi, quando mudamos de marca, de que é muito líquido e pinga para o chão.

Primeiro andavámos tristes porque as ruas estavam desertas, agora é uma chatice haver outra vez filas de trânsito.

Já implicámos com a chuva e o frio que, sem respeito nenhum pelas nossas necessidades, vieram fora de horas. Hoje queixamo-nos das temperaturas demasiado altas.

Achamos uma chatice não poder ir à praia sem o receio de nos barrarem a entrada e reclamamos por ter que esperar na fila quando um estabelecimento comercial já está com a lotação esgotada. Mas antes reclamávamos por não estarem abertos.

Fico a pensar nas gerações anteriores à minha, que já passaram por tanto, por tantas situações difíceis. Tiveram tantos desafios, que é o eufemismo da moda para os velhos ‘problemas’. Guerras civis, ditadura, doenças, recessão económica... o futuro que nos assusta, para eles foi realidade. Felizmente muitos sobreviveram e chegaram até aqui lembrando-se muito bem de como foi. Bastaria um passeio rápido com eles pela “rua da memória”, para aprendermos umas coisas. Como por exemplo: será que eram fraquinhos e queixinhas como nós?

Acho que há de tudo, em todas as gerações. E este estado de insatisfação permanente, mais do que um traço cultural, parece-me ser um traço de personalidade.

Num programa da televisão brasileira dos anos 90, uma apresentadora energética e animada fez umas entrevistas no norte de Portugal. Uma das entrevistadas foi uma senhora com 93 anos, toda vestida de preto e com uma expressão inegável de tristeza. A apresentadora perguntou-lhe, depois do nome e da idade, se ela estava triste. “Então não hei de estar? Perdi a minha mãe aos três anos!”, foi a resposta que obteve. Sem conseguir esconder a surpresa, respondeu-lhe: “Mas então a senhora está triste há 90 anos!”

Noutra história de mãe e filha, tenho uma amiga de 24 anos que teve a sua bebé prematura no passado mês de abril. Todos os dias aparece no trabalho bem-disposta e confiante, depois de vir do hospital onde a sua filha aguarda a alta médica. Apesar de ter todas as razões para o fazer, a minha amiga até agora nunca se queixou. Nem uma única vez. De nada.