O amor em dois parágrafos indecifráveis

O amor também é uma longa noite escura, é um lugar sem luz e o caminho que vai para lá, é o tempo que eu gasto em chegar e a dor que me esmaga no percurso, é o cansaço absoluto, sabes, o amor é a súmula perfeita do silêncio e da solidão, é o desconcerto do mundo, um pouco acima de zero durante a viagem, zero império quando ela termina, a viagem do amor, e depois cabe tudo lá dentro ao dizer amo-te, toda a felicidade e todo o sofrimento, mas dizer amo-te só vale a pena quando tu ouves, tu sentes, amo-te, amo-te, amo-te, o som faz eco no passado, a fúria ecoa no futuro, é uma palavra que nos despe para além da nudez, mas não vale a ponta dum corno se for dita com medo, com interesse, com pruridos ou com vergonha – em voz baixa sim, mas com pudor nunca, muito menos com dúvida ou proveito e menos ainda com temor, meu Deus, dizer amor com temor jamais – sabes, o amor é sangue e o resto é a puta que pariu da vida, é o vizinho que reclama do barulho que a cadeira faz quando eu me levanto e não ouve o maldito barulho que o silêncio dele faz por toda a parte, o vazio, o sono, é um polícia que multa, é um cabrão na rua que insulta – hoje foi comigo amanhã será contigo, ò filho da puta – é assim mesmo, a rua, o trabalho, hora de ponta, hora de comer, vamos comer, e a seguir hora de andar para emagrecer, se for a correr tanto melhor, é bom para o coração, pois é, todo o dia a mesma coisa, pooooorra, mas agora a coisa melhorou e já vamos a copos na tasca também, vinhaça e dentinhos à maneira, tudo desinfetado até ao nojo e o tempo passa, a imortalidade esgota-se, ai esgota-se sim senhor e uma pessoa fica a ver a morte aqui mesmo, a morte debaixo das barbas, e depois fecho olhos e vejo coisas de outro tempo e de outro lugar, as constelações em África, as belas estrelas do sul cintilando no céu da Zambézia e eu ali sozinho na beira da estrada à espera que passe um carro apinhado de gente para ir a banhos no Índico, 450 quilómetros, meu Deus, o que faço eu aqui, o que faço eu aqui – fecho os olhos outra vez e vejo uma casa no Campanário há muito anos, eu era miúdo, fomos lá fazer uma visita, a minha família toda, uma casa com telhado de quatro águas, uma escadaria muito inclinada em pedra roliça, o terreiro, uma latada, pessoas a conversar, a voz das tias, a voz dos mortos, ao fundo um poço, sapos, girinos, um gato branco na levada, o pai, uma pedra, miauuuu, não digas nada à tua mãe – o pai nunca gostou de gatos, mas amoleceu o ódio nos últimos anos, agora não tolera o sofrimento dos bichos, de nenhum bicho, chegou a sua hora de sofrer, o cancro a crescer, a piorar, dores cada vez mais fortes, pastilhas também mais fortes e dá para aguentar, dá para governar a vida, plantar couves e alfaces, tratar das galinhas – fecho os olhos mais uma vez, agora estou no futuro, uma cidade enorme, a perder de vista e todas as ruas têm nomes de pessoas que eu conheci, lugares onde estive, países, bares, restaurantes, coisas que eu disse, carros que eu conduzi, rua Ford Ka, rua Sou Triste Como Um Peixe Preso À Vida Num Charco Que Se Esvazia, rua Els Quatre Gats, rua Pharmácia do Bento, rua do Nepal, rua Porto Amélia, rua Maria Celina Fernandes Velosa Caires – isto é a vida e o amor é sangue – abro os olhos e são quatro da manhã, estou sentado na varanda do prédio – o amor também é uma longa noite escura – então passa um carro lá em baixo com o volume do rádio ligeiramente alto e eu oiço dizer too much love will kill you, mas respondo logo, sem hesitar:

– Não vai não.