Somos os mesmos?

Devagar, como quem tem pressa, vamos voltando à normalidade possível. Devagar, como quem tem medo, vamo-nos adaptando a um tempo novo que surgiu sem que dele estivéssemos à espera, um tempo em que nos conhecemos pelo olhar, um tempo em que os abraços são sentidos por dentro, um tempo em que a distância nunca se revelou tão próxima.

Andamos devagar, como quem tem pressa, a aprender a respirar atrás da máscara, a aprender que a amizade se escreve por outras linhas, a aprender que somos mais do que nós e que temos uma capacidade enorme de nos adaptarmos, de nos inventarmos, de nos recriarmos. E vamos ensaiando novos passos, encontrando soluções para os problemas que vão surgindo, gerindo o espaço (e isto passou a ser literal) que pertence a cada um.

Oxalá tivéssemos aprendido a dar valor aos que convivem (no sentido de viver com) connosco, à possibilidade de sobrevivermos com o essencial, à importância de ter um bocadinho de chão para esticar as pernas e uma janela-de-ver-o-mar. Oxalá tivéssemos aprendido que é preciso aproveitar cada momento, porque amanhã… Oxalá tivéssemos aprendido que a vida já não pode ser vivida da mesma maneira.

Voltamos diferentes, para a rua. Agora, gostar implica afastar-se, deixar que o olhar diga da luz que nos manteve acesos por dentro, durante este tempo de confinamento. Não sei se somos as mesmas pessoas que éramos antes de março… Não sei. Sei que há muita gente em dificuldade. Sei que estamos a tentar. Sei que cada um fará o melhor que puder, para não deixar cair a esperança e a humanidade.

E a verdade, a minha verdade é que tenho saudades de abraçar. Eu sou mulher de abraços. Tenho saudades, sim: de um banho no mar, de andar, livre, nas ruas, segurar saudades de rir, com a gente do costume, de rezar com a gente do costume, de passear por aí, com a gente do costume. Tenho saudades dos meus.

Entretanto (enquanto aprendo a ser assim), espero. E nessa esperança, preservo a minha identidade.