Até que a voz nos doa

A recente decisão do Tribunal de Ponta de Delgada, de não reconhecer às regiões autónomas as competências de aplicação de quarentena, vem demonstrar não só as limitações da nossa Constituição, como, por consequência, da nossa Autonomia, em especial numa matéria tão importante como a salvaguarda da nossa segurança, saúde, acima de tudo, da nossa vida.

Se a Madeira se apresenta como um caso de sucesso nas estatísticas covid-19, não é por mera sorte, mas sim porque, desde a primeira hora, tomou medidas essenciais para travar a propagação da doença.

Não lhe tendo sido permitido encerrar o aeroporto, mais uma vez por limitações da Autonomia, a Região recorreu à quarentena obrigatória para todos aqueles que entrassem no nosso território via aérea, (a única possível, já que os portos foram encerradas).

Esta decisão foi fundamental para que a Madeira apresente hoje o quadro que apresenta em relação à pandemia, sendo a única região do país onde, até ao momento, não se registou qualquer morte por covid-19.

Esta leitura do tribunal açoriano é, assim, uma ameaça à nossa segurança e à liberdade que deveríamos de ter de nos protegermos enquanto comunidade.

Se esta situação for seguida por outros indivíduos, cuja liberdade individual parece estar acima da segurança coletiva, coloca-se em risco tudo aquilo que de bom se fez nos últimos meses. De que serviu então o esforço e sacrifício de todos nós?

Enquanto o Governo da República se debatia entre a "linha ténue" que separa a liberdade individual da segurança coletiva, e os casos de infetados continuavam a subir, na Madeira agia-se e os números são a melhor prova da política assertiva e firme levada a cabo pelo nosso Governo.

Se, e já impedida de fechar ao seu território exterior, a Região for obrigada a deixar nas mãos de qualquer individuo ou do Estado a decisão de colocar de quarentena quem chegue à nossa Região, estaremos a deitar tudo por terra. E, aí, como já se disse, e bem, alguém vai ter de se responsabilizar.

A verdade é que a culpa acaba, quase sempre, por morrer solteira e enquanto se promove, na República, uma política centrada no 'show-off' e na fuga das responsabilidades, os Madeirenses podem pagar caro.

Já nos bastam os sucessivos adiamentos de matérias fundamentais para a Madeira e o protelar de situações com recurso a argumentos dúbios, com o único objetivo de ganhar tempo na estratégia de nada fazer.

Infelizmente, as poucas conquistas alcançadas, no que diz respeito a áreas da competência do Estado, foram conseguidas a ferro e fogo, depois de esgotada toda a dialética política do Governo da República no sentido de adiar as decisões.

Os Madeirenses não deveriam cansar a sua voz para se fazerem ouvir, mas o que impera é a rouquidão deste lado e a surdez do outro. Enquanto isso, a única coisa que incomoda a alguns são os gritos. Será melhor ficar calado?