Desconfinamento

Desconfinamento. Eis uma das novas palavras que agora marcam os limites do nosso quotidiano. Depois da ameaça, depois da soleira da porta como limite, ou dos arredores da casa como bónus, podemos agora desconfinar. Mas temos de o fazer de forma controlada, com máscara, com distanciamento social, com álcool gel, com uma assepsia que nos distancia do mundo..

Percebe-se que as coisas têm de ser assim. E acredito que racionalmente todos vamos cumprir as regras. Mas o mundo tem os seus desafios e nós somos pouco talhados para movimentos à distância. Quando há sol e vento e árvores e uma quase normalidade, é fácil esquecer a coisa invisível que nos ameaça a respiração.

Ainda assim, há um alarme inaudível que nos leva a manter a distância. Levo o cão ao parque e as pessoas mantêm-se a uma distância segura, falam separadas por metros, olham a medo aqueles que antes olhavam em reconhecimento. 

Crescemos para este novo normal à força e nada tem mais força do que a sobrevivência. Biologicamente tendemos sempre para a sobrevivência como único movimento possível, mesmo que a avaria ou a dor nos façam, por vezes, aproximar do abismo, ou desejar o abismo.

De modo que instintivamente sabemos ficar a salvo, mesmo quando esse ficar a salvo nos exige tanto da nossa humanidade e do que nos impele para os outros de nós.

Reparo que no parque os únicos que voltaram ao novo normal sem regras novas são os bichos e as crianças. Uns e outros não sabem o distanciamento social e a sobrevivência. Ali só existe vida e a felicidade de voltar à rua. E este é também o grande desafio para nós. É fácil manter a distância quando quem está à frente joga o mesmo jogo e sabe as mesmas regras. Mas como manter a coisa controlada quando do outro lado não existe o novo normal, mas apenas a normalidade de regressar ao mundo, como se o mundo não tivesse alterado a rota e a pulsação da terra.

As crianças aproximam-se, levam-nos pela mão, continuam a querer tocar nos cães e falam com a cara quase encostada à nossa respiração. As crianças sorriem e aproximam-se demasiado. Dentro de nós, todos os alarmes possíveis soam ao mesmo tempo. Tentamos voltar à distância segura, mas as crianças voltam a aproximar-se. Vêm por causa do cão, que abana a cauda em partilha da mesma inconsciência feliz. Olho para os pais à espera de indicações, mas eles também parecem não saber lidar com a natureza próxima das crianças. Afinal, como gritar-lhes que se afastem do mundo? Como dizer-lhes que a partir de agora é só desinfetar as mãos e mascarar o sorriso.

No fundo, é difícil manter a distância, afastar a mão adulta da mão pequena, fugir do sorriso e da alegria das crianças e dos bichos que desconfinam de forma tão diferente da nossa.

Não dizemos nada por vergonha, sim, há uma vergonha que nos impede a fuga. O mais difícil, parece-me, será desconfinar o coração sem tocar o mundo e o que resta de felicidade por dentro dele.