A mar

Às vezes aparecia um o outro caso na televisão de gente que nunca tinha visto o mar, gente que trazia a interioridade cravada na pele, como nós trazíamos a insularidade. 

Coitadinhos, costumava-se dizer perante o exotismo e bizarria dos espécimes. Era mais ou menos contranatura, para quem acordava e dava com o mar de frente, mesmo quem vivia na serra. Não é que a maior parte das pessoas perdesse grande tempo em contemplações. Mas tal como havia nuvens no céu, havia mar no horizonte. Era assim e pronto. Como a lua no céu à noite.  Era engraçado quando se aprendia na escola o que era uma ilha. Um pedaço de terra rodeado de água por todos os lados. Não sabíamos nós outra coisa. Era o nosso destino e a nossa fatalidade.

Quem emigrava e acaso acabava mais do que além-mar em terras sem mar, ou onde rios faziam a vez de mar, davam o devido valor.  Ai se davam. Era vê-los espantados a olhar para as Desertas ou a enfiar-se mar adentro em pleno inverno nosso, mas que no ver deles era mais do que verão. E nós a olhar boquiabertos com a sofreguidão da nossa gente perante o que era tão certo como as nuvens, o céu, o sol, a lua e as estrelas.

Era tão incompreensível como os tais coitadinhos, que às vezes eram notícia na televisão por viverem uma vida inteira sem ver o mar, de interioridade colada na pele, como o sal e sol cravados na nossa.

Mas quando voltou ao mar e sentiu-lhe o cheiro dois meses depois, foi deles que se lembrou. 

Sem oportunidade de lhe sentir o cheiro mais de perto ou até de molhar os pés. O sinal de interdito a escarranchar-lhe na cara, com escárnio, que neste momento era uma ilha rodeada de nada por todos os lados. Não foi isto que aprenderam na escola. Não foi.

E por isso lembrou-se deles: dos afortunados, que passaram uma vida inteira sem saber o que é o mar. Coitadinha dizia a si mesma, com alguma inveja. Sorte deles, os que não tinham a insularidade no corpo, nem na cabeça. Uma vida inteira sem saber, por experiência própria, que uma lágrima também sabe a mar.