O poeta enterra o seu cão

Conheci um padre em África que adorava gatos, mas detestava cães. Odiava-os. Era um homem sempre irado, já com mais de setenta anos. Aliás, quanto mais velho ficava, mais irado se mostrava. Vivia blasfemando e insultando toda a gente, dentro e fora da missão. Utilizava palavrões do piorio para classificar os santos, os anjos e a Virgem Maria e outros ainda piores para designar a população local, mas reservava os mais horríveis para si, quando se autoavaliava para o bem e para o mal. Era um gajo estuporado. Isto eu sei, porque vi. O resto, porém, são histórias que me contaram.

Há muitos anos – disseram-me – o padre afeiçoou-se a um miudinho órfão que apareceu lá na missão a pedir comida e começou a tratar dele como se fosse seu filho. Andava para cá e para lá com o puto sempre à beira. E era esperto, o miúdo, inteligente e sensível, tinha muito génio e engenho e alma de poeta também. O padre ensinou-lhe tudo o que sabia sobre ódios e paixões – Deus e o diabo, a Igreja e o mundo, a meditação e a liberdade, a literatura e a selva, os cães e os gatos, sobretudo os cães e os gatos.

O padre tinha um nojo irracional por cães e um amor incompreensível por gatos. Para estes, tudo. Para aqueles, nada. Assim mesmo. A missão estava, por isso, repleta de gatos e ai do cão que por lá aparecesse.

Às vezes, para desenjoar das orações e da bondade fingida, o padre organizava sessões de extermínio de cães, que tanto agoniavam e horrorizavam o seu pupilo.

Uma delas – disseram-me – consistia em abrir um pequeno buraco no muro que circundava a missão, de modo a permitir a passagem dos cães, que dali iam direitinhos ao fosso do lixo, em busca de comida. Na beira do fosso, o padre montou uma estrutura constituída por duas estacas e uma trave.

Um ou dois cães escanzelados e tinhosos amanheciam sempre no fundo da lixeira e então o padre surgia lá no alto munido de uma corda, na companhia do pequeno órfão. Fazia um nó de correr e lançava-o ao pescoço dos bichos, um de cada vez, e depois passava a corda sobre a trave e puxava-os para cima, com brutidão, sem dó nem piedade, e eles morriam enforcados, assim mesmo, enforcados.

O menino – disseram-me – perdia o coração, o ar e a respiração diante deste horror, mas a verdade é que o espetáculo se repetia com frequência e, muitas vezes, o padre obrigava-o a puxar a corda e depois ele chorava toda a noite sem saber a quem pedir perdão, chorava sem dormir, toda noite o menino chorava sem fim e sem perdão.

– És um macaco de merda e a Virgem que te protege é uma grande cabra – dizia-lhe o padre.

Contaram-me que os enforcamentos eram entremeados com fuzilamentos. Neste caso, o padre cobria a lixeira com bambus grossos e deixava os cachorros vaguearem durante a noite pela propriedade. Depois, pegava na espingarda e no orfãozinho e iam os dois à caça ao raiar do dia. O miúdo tinha boa pontaria e era forçado a abater os cães. Mas, a certa altura, começou a falhar de propósito e o padre, percebendo a sua fraqueza, insultava-o com palavrões monstruosos, como se ele fosse um santo, um anjo, um negro que era, a Virgem Maria e o próprio padre ao mesmo tempo.

Um dia, em profunda angústia, o miúdo virou-se para o padre e disse:

– Quando é que vamos começar a matar os gatos?

O padre perdeu o juízo. Choveu sobre ele uma chuva torrencial de insultos e blasfémias e a seguir aplicou-lhe uma sova com a corda dos enforcamentos. Foi a primeira e única vez que o padre lhe bateu. O miúdo tinha já quinze anos e a relação entre eles perdeu-se para sempre. Depois, o rapaz decidiu partir. O padre foi ter com ele, para se despedir. O rapaz olhou-o com demora e tristeza e desprezo também e no fim disse:

– O que faz aqui o cão que eu já matei e enterrei?