Desconfinados e encafifados

Há dias vi um anúncio bem-humorado colado à montra de bolos de uma pastelaria para avisar aos seus ‘estimados clientes’ que estavam muito felizes por voltar a vê-los mas que só lhes queriam ver os olhinhos. Para bom entendedor, uma máscara chega.

Ontem, vi um homem encontrar um conhecido na rua. Eles cumprimentaram-se com palavras e acenos de mão à medida que iam se aproximando. Quando estavam a passar um pelo outro, o que parecia ser o mais novo fez um gesto automático de esticar o braço para dar uma palmadinha nas costas do homem (esse gesto tão comum nos cumprimentos masculinos). Ao aperceber-se dessa intenção, o homem esquivou-se, ágil como um gato, desviando o seu indefeso ombro mesmo à última hora.

O inimigo que sempre foi classificado como invisível agora parece que se materializou no outro. Na sua respiração, na sua tosse, no seu espirro, no seu toque, nos seus mais pequenos e inocentes gestos. E assim andamos encafifados (aqui, um sinónimo de cismados) e com medo do outro. Diria mesmo cheios de medo, pelo que tenho assistido. Medo dos ciganos, dos chineses, dos estrangeiros, dos mendigos, dos enfermeiros que têm que apanhar o metro. E dos velhotes que andam na sua vida, em passo lento, sem máscara e sem medo de nada.

Para evitá-los e a tantos outros, muda-se descaradamente de passeio e se não pode fazê-lo, é acelerar o andamento. Se há duas pessoas paradas na esquina, tem que se arranjar maneira de contornar com segurança a perigosa ‘multidão’. Dá-se um passo atrás quando alguém se aproxima, porque há que manter dois metros de distância física e muitos mais metros de distância social. Porque ainda que pareça, as duas não são a mesma coisa.

Sei que o medo é legítimo e a ameaça tristemente real, mas ainda assim tenho tentado ser mais gentil nas minhas interações e não ver em cada pessoa um infetado assintomático.

Se só lhes posso mostrar os olhinhos, como pediam os senhores da pastelaria, tento arranjar pretextos para falar mais e usando palavras gentis. Até porque no tom de voz também se ‘ouve’ o sorriso.