As Línguas em que nos entendemos

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) ratificou, esta segunda-feira de manhã, em Paris, o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Uma língua que, felizmente não parou de se desenvolver, mudar, adaptar, transformar, aperfeiçoar, de se enriquecer com novos termos, novas construções, outras nuances. E venham de lá os tais puristas da língua porque… a pureza da língua, de qualquer língua está na sua capacidade de ser nova todos os dias. Diferente e sempre igual, um idioma “doce e agradável como o apelidou  Miguel de Cervantes, o célebre autor espanhol de Dom Quixote de La Mancha.

O Dia Internacional da Língua Portuguesa é falada, e foi comemorada no passado dia 5 de Maio pelos países da chamada CPLP. A data foi instituída em 2009, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com o propósito de promover o sentido de comunidade e de pluralismo dos falantes do português. A comemoração propicia também a discussão de questões idiomáticas e culturais da lusofonia, promovendo a integração entre os povos desses nove países.

Com as chamadas descobertas portuguesas deu-se a difusão da língua portuguesa pelo Brasil, África e outras partes do mundo. Nessa altura a língua também influenciou várias línguas e de várias e diversas línguas bebeu palavras, expressões, flexões e novas construções gramaticais sendo, actualmente, por ser falada aproximadamente por quase 300 milhões de falantes, a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.

E aqui fica a pergunta: uma língua falada por quase trezentos milhões de pessoas, em três continentes diferentes, com culturas, costumes, pronúncias e expressões muito próprias a quem pertence?

Há uns anos, e a propósito do poema «Namoro», do poeta angolano Viriato da Cruz, numa conversa com Luandino Vieira, este terá contado que num convívio entre presos do Tarrafal, onde Luandino se encontrava detido, um dos presos terá cantado o referido poema com a música da autoria de Rui Mingas, garantindo que se tratava de uma canção da sua terra, lá para os lados de Trás-os-Montes. Perante a insistência do “cantor”, Luandino terá concluído que quando um poema, uma música deixa de ter dono, passa a ser de toda a gente ou de ninguém, e isso é o que de melhor pode acontecer a um escritor, a um cantor, a um músico.

Vem isto a propósito de muitos defenderem que a língua portuguesa pertence a Portugal. Hoje por hoje ela é dos 280 milhões de pessoas que a falam, Que a transformam. Que a enriquecem. Que a desconstroem para construir uma, muitas formas novas de a falar e escrever.

Jindungo. Musseque. Batuque. Rebita. Carimbo. Quimbanda. Quezília. Xitaca. Sanzala. Ginguba. Chipala. Muvuca. Goleiro. Ônibus. Cabedula. Cacata. Maningue.

Para terminar, e voltando a Luandino Vieira, um pequeno, mas elucidativo exemplo de que o Português, língua, não tem dono, retirado da sua obra “Luuanda”, premiada em 1965 pela Sociedade Portuguesa de Autores e que levou ao seu encerramento pela então polícia política portuguesa: «Junto com os estalos da lenha a arder e o cantar da água na lata, os soluços de Zeca Santos enchiam a cubata (…) Mas também, Zeca não ganhava mais juízo, quando estava ganhar o vencimento no emprego, que lhe correram, só queria camisa, só queria calça de quinze embaixo, só queria peúga vermelha, mesmo que lhe avisava para guardar ainda um dinheiro, qual?!»

Uma Língua que, importada do tal país que muitos dizem estar “à beira mar plantado” e que, talvez por isso mesmo partiu mar afora em busca de outros mares e com ele levou a língua que, noutros países com línguas muitas e muito diferentes, adotaram como língua oficial.

Dia 5 de Maio. Dia da Língua Portuguesa. E somos quase trezentos milhões, enriquecendo, modificando, construindo uma outra língua como falou Mia Couto: «O mar foi ontem o que o idioma pode ser hoje, basta vencer alguns Adamastores».