Mistério da Salvação

Naquele dia, ela pensou em matar-se. Estávamos no princípio do mês de maio e ela pensou em matar-se. Aconteceu quando desviou os olhos do televisor e eles saíram pela janela, a correr como dois cavalos selvagens lado a lado, os seus olhos foram para lá das montanhas, para lá do fim do mundo. Foi um olhar breve e descomprometido, incapaz de sentir a natureza do dia e a finitude da paisagem, mas o facto é que ela pensou em matar-se.

Imaginou-se no mercado central a adquirir uma corda, a fazer um laço na corda, a passar a corda pela trave mestra do teto da sala. Depois, imaginou-se a subir numa cadeira, a pôr a corda no pescoço, a afastar a cadeira com os pés. E a seguir imaginou o esticão do seu corpo no vazio e a força desse esticão fê-la pôr a mão na garganta.

– Ai meu Deus! – Disse em voz baixa.

Em silêncio e com a mão na garganta, observou o seu corpo suspenso no ventre da sala. Observou também o espanto das pessoas quando o descobrissem e sentiu o arrepio dos outros, sentiu o medo e o horror dos outros dentro de si, como se fossem o seu medo e o seu horror dentro dos outros, o seu espanto e o seu arrepio também.

– Ai meu Deus! – Repetiu em voz baixa.

Não estava a prestar qualquer atenção à trama de ‘La que no podía amar’, uma telenovela mexicana que seguia com apego e paixão desde o primeiro episódio. Olhava para o televisor, mas o que via era o seu corpo pendurado, oscilando ao de leve entre os belos e dramáticos atores mexicanos, o seu corpo morto como se fosse mais um personagem no intrincado enredo da telenovela.

Esta, diga-se, não foi a primeira vez que ela pensou em matar-se. A ideia ocorria-lhe com alguma frequência desde o fim da infância, por razões que nunca entendeu na plenitude, porque estavam para lá de tudo o que é possível entender e por isso não eram razões para nada. Era apenas o pensamento e não há nada mais livre e perigoso do que o pensamento, agora e sempre.

O enforcamento é o método que mais a encanta. É o método do seu coração, digamos assim. Mas também equaciona a possibilidade de se atirar ao lago amarrada a um pedregulho. Outra ideia é a de subir à montanha e atirar-se de um precipício. Também lhe ocorre envenenar-se com ‘Ratox’, um rodenticida à base de difenacume, que é um anticoagulante de 2.ª geração, muito popular entre os suicidas da zona. Já a ideia de cortar os pulsos é pouco recorrente, mas de vez em quando também lhe bate na cabeça como um intruso mal-intencionado. No entanto, quando ela pensa que qualquer destas formas lhe poderá provocar uma dor difícil de suportar, assusta-se e envereda pelo tiro no céu da boca, uma morte fulminante, embora não lhe agrade nada o estrondo provocado pelo disparo, para já não falar do sangue espalhado por todo o lado.

Naquele dia de maio, porém, ela acabou por atirar uma vez mais a morte para trás das costas, como sempre, ou para trás da tristeza ou para trás da sombra mais escura e recuada da alma. Em contrapartida, andou três dias com vertigens e dores na cabeça e vomitou em duas ocasiões. Mas isso foi depois. Agora, diante do televisor, ela ficou esgotada de tanto pensar quem sou eu, eu sou eu, ficou mesmo esgotada, até que franziu o sobrolho e disse para si, como se o si constituísse outra pessoa, a quem se contam segredos e se revelam as distâncias ocultas do ser, disse assim:

– Não vale a pena.

Suspirou e insistiu:

– Não vale a pena.

E, a partir daqui, embora já estivesse nauseada e com dores na cabeça, trouxe os olhos de volta para dentro de casa e começou a prestar atenção à telenovela protagonizada pela lindíssima Ana Brenda Contreras e pelo galã Jorge Salinas, difundida naquele fim de mundo por um canal de televisão por satélite.