A gratidão

Quero muito resgatar a esperança neste tempo que é de medo e de ausência. Quero muito ajudar a dirigir o olhar para aquilo que é de todos: as flores, o sol, os gestos delicados, o presente, este agora que, apesar de todas as angústias, nos pertence. Quero muito reconhecer o infinito que habita os olhos de quem se cruza comigo, os braços que me têm amparado no caminho, a luz que mora no interior das noites e que o meu peito fechado impede de ver. Quero muito sentir o calor dos abraços (mesmo que, por estes tempos, tenhamos de refrear o toque) e perceber nesse desejo a facilidade de sermos uns dos outros.

Deixo, pois, hoje, que as minhas palavras caiam de joelhos perante a maravilha que é a vida. A nossa. A dos outros. Apetece-me, então, a palavra gratidão. Sim, eu sei, não é fácil agradecer. Talvez porque isso implica tomar consciência de que se precisa sempre de alguém. Talvez porque isso significa perceber o dom que é o outro. Talvez por isso.

Face a tantas ameaças, o tempo de fazer as pazes com o tempo é agora. E nesse agora, cabe o espanto: o mar que avisto da minha janela é de um azul tão infinito que me traz memória de outros lugares, de viagens, de gentes, de sabores, de luzes, de poesia e de músicas; as montanhas que sei que moram atrás das casas da minha rua são tão fortes que seguram este lugar onde construi a minha história; a alegria das flores do meu jardim é tão grande que ilumina os olhos de quem passa na rua; as minhas pessoas são tão importantes que me seguram de pé, mesmo quando o chão me pede colo, nos dias que são mais noites ou nos desertos das perguntas sem resposta.

Neste tempo de medos e de desconfianças (se alguém tosse, se alguém espirra, se alguém não está devidamente desinfetado), apetece-me agradecer. Agradecer-lhe a si, que me lê, porque me faz acreditar que vale a pena. Agradecer as pequenas maravilhas que me foram oferecidas, ao longo da vida: a dança dos pássaros, o convite para uma gargalhada, a visita de um amigo, o perfume da panela no fogão, o olhar que se cruzou com o meu e me mostrou que não ando sozinha por aqui.

Quero, pois, agradecer(-lhe). Parece que tudo fica mais simples, quando encontramos um motivo para dizermos “obrigada”, não é verdade?