A palavra que falta

Às vezes penso como sobreviverias a estes tempos tão estranhos de confinamento e distanciamento social. Tu que gostavas das pessoas, que abraçavas de corpo inteiro, de vida inteira.

Não, não eras especialista em atos à distância.

Tudo em ti era rente ao corpo, à pele, à urgência de quem sabe que não existem segundas oportunidades. Mesmo quando há vida, o segundo lance é sempre mais fraco.

Nunca vi fraqueza em ti, ainda que, no fim, ela se revelasse em quase todos os teus movimentos que eu substituía com a crença de que, se os fizesse com a precisão necessária, poderia devolver a força que escapava, a geografia que se tornava confusa, a fala que se revelava silêncio.

Sim, o mais forte foste sempre tu. E eu só podia fraquejar, mergulhar numa espécie de desespero que precisava de um guia para não ser deserto e falha.

Ainda assim, tentava segurar do lado da vida o que já tocava o outro lado. Esse lado para onde tu olhavas e que eu não via. Esse lado frio do mundo onde não estou. Mas, sabes, o frio chega aqui. Todos os dias, todas as horas. E eu ainda não tenho nome para isto. 

Como dizia uma amiga tua, talvez só tu tivesses uma palavra para definir esta falta. Mas tu, que deixaste tantas palavras, não deixaste a única que poderia dar nome a isto depois de ti.

Afonia pura. Perda mais ou menos considerável da força e da clareza, esclarece o dicionário. E sim, perde-se a força e a clareza da voz e perde-se, sobretudo, a palavra que falta, a palavra que éramos nós e a casa e a vida e o tempo para encaixar tudo lá dentro. Tudo embrulhado na paragem da tua respiração. Tudo parado naquele silêncio que ficou depois.

Ainda procuro a palavra que só tu serias capaz de pronunciar e de me ensinar. Leio Roberto Juarroz: "Não existem respostas como fórmulas ou objectos que nos dêem a solução para esta coisa sem solução que é a vida e a morte do homem. O que a poesia procura não é o confortável recurso de uma resposta, mas algo mais sério e importante: perante a impossibilidade de respostas, criar presenças que o acompanhem. A poesia não cria soluções, fórmulas ou receitas fáceis para a vida, mas companhia para a vida. E nesse enfrentar a morte chega-se a um extremo, mas também à transformação da morte numa presença. [...] Por isso me ocorre que o homem tem, um pouco milagrosamente, a possibilidade de colmatar a ausência de explicações absolutas com a gestação destas presenças, por uma entrega total. Também me parece muito belo o apoio presencial do poema, como se se tratasse de um ser humano ou qualquer outro ser. É uma compensação, mas penso que não seja apenas isto. É também sentir que não somos inúteis, que não somos desnecessários, que de alguma forma colaboramos com o universo: criamos realidade."

É bonito. Tu de certeza que acharias bonito e talvez até encontrasses alguma verdade em tudo isto. Eu também encontro. E, ainda assim, continua a faltar a tua palavra para o resto, para a transformação da morte numa presença. Porque nada disto que sobra é a morte em abstrato. Nada disto que sobra é teoria. Faltará sempre uma palavra. A tua. A nossa. A vida que seria possível se o ar tivesse voltado a sair de ti.

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas