Um gajo começa a dar em louco

Há uma parede na cidade do Funchal que tem mais de dois mil anos. Quando os especialistas em pedras e paredes descobriram isso, em 1989, ficaram espantados, deveras espantados, pois a presença humana oficial na ilha não é assim tão antiga. Os especialistas olharam e reolharam uns para os outros de boca aberta. Depois, abanaram a cabeça como quem sabe tudo e os outros é que são tontos e afirmaram do alto das cátedras que, de facto, quando os portugueses chegaram à ilha a parede já cá estava desde o século I a.C., perdida no meio duma mata.

Então, se não foram os portugueses, quem diabo ergueu a parede?

Os especialistas não desarmaram. Tinham dado voltas e revoltas ao mundo, vasculhando e refundindo inúmeros papéis em arquivos e bibliotecas sem fim e agora sabiam tudo clarinho como água.

– Quem fez a parede foram os cananeus – disseram eles.

– Os cananeus! – Retorquiu o povo, atónito.

– Os cananeus, sem dúvida! – Afiançaram os especialistas.

Ao princípio, a incredulidade foi geral e gerou-se uma enorme chacota à volta do assunto, uma meríade de anedotas de escangalhar a rir, mas com o tempo a história pegou, de modo que hoje não há quem a contradiga. Se o fizer, é logo insultado forte e feio, com palavrões e tudo. Ou seja, a parede data do século I a.C. e quem a ergueu foram os cananeus. É ponto aceite e documentado. E, mais não seja porque vivemos em democracia, quem manda é a maioria e não vale a pena remar contra a maré, pelo que o melhor é aceitar os factos como eles são, caraças.

Afinal, uma coisa destas não custa assim tanto, pois não? Quero dizer, vive-se bem com uma parede erguida pelos cananeus há mais de dois mil anos numa ilha no meio do Atlântico que só foi achada pelos portugueses no século XV depois de Cristo. Há coisas bem piores e que causam males bem maiores e nem por isso deixam de ser bem acolhidas pelas pessoas. Basta ver um bocadinho do telejornal para perceber isso, porra! São tontos ou quê?

Observemos agora a parede de perto, para melhor a entendermos.

Em traços gerais vê-se que é uma parede absolutamente normal, feita com blocos de basalto muito toscos, mas bem emparelhados. Vê-se também que mede 10mx2mx1m. À primeira vista é uma parede como tantas outras espalhadas pela ilha e há muitas por aí. Só que as outras foram feitas pelos portugueses e esta foi feita pelos cananeus.

Do lado de cá passa uma rua razoavelmente movimentada. Nessa rua é frequente ver-se pessoas, sobretudo turistas (agora não, já se sabe porquê), paradas diante duma placa na qual se lê que a parede tem mais de dois mil anos e foi erguida pelos cananeus, afirmações repetidas em várias línguas, inclusive na dos cananeus modernos.

Do lado de lá, estende-se um baldio que era suposto ser um jardim para servir três prédios de habitação, mas que resultou numa lixeira a céu aberto, onde costumam passear ratos e drogados e outras espécies de bandidos diurnos e noturnos, não só do reino animal, como do reino vegetal, onde se destacam o amor-de-burro e as urtigas.

Na parede vive uma imensa e animada colónia de Lacerta dugesii, que é como quem diz lagartixa-da-madeira, espécie endémica da ilha. Este réptil sáurio da família dos Lacertídeos, cuja alimentação é generalista, pode atingir 20 centímetros de comprimento, embora o normal seja 10 a 15 centímetros. Os exemplares são todos diferentes uns dos outros, como se fossem pessoas, talvez pessoas chinesas vistas por olhos ocidentais a atravessar uma rua em hora de ponta. Mas também se pode dizer que as lagartixas são como cães rafeiros, que também são todos diferentes uns dos outros como pessoas ocidentais vistas por olhos chineses a atravessar uma rua em hora de ponta.

Enfim...

O resto fica para a próxima crónica, que eu já tou mas é a dar em louco.