Mãos ao alto

Ando muito impressionada com a quantidade de vezes que levo a mão à boca ou à cara num só dia. E mais impressionada ainda com a quantidade de gestos que faço sem pensar e que vêm, agora, acompanhados de uma auto repreensão.

Para início da confissão, descobri que uso muitas vezes os dentes para segurar objetos, como se a boca fosse uma terceira mão.

Mordo as chaves de casa enquanto uma mão procura o telemóvel na carteira e a outra agarra um saco de compras.

Penduro o gancho do cabide na boca, enquanto uso as mãos para pendurar nele a camisa perfumada de amaciador e acabada de passar.

Trinco a caneta com os molares, forçando um sorriso de um lado só, enquanto me dirijo para o a secretária com o computador e os cadernos nas mãos. E há muito que sei que, enquanto escrevo, mordiscar o lápis ou a caneta para ajuda-me a pensar melhor.

A haste dos óculos é outra que anda toda roída, porque também ela passeia entre os meus dentes.

É vastíssima a lista de situações em que as mãos desempenham o papel de umas ferramentas fantásticas e em que a seguir a alguns gestos encho-me de culpa e ponho-me a vasculhar a memória para saber onde elas tinham andado antes. Quando como mangas ou laranjas, ou qualquer outra fruta sumarenta e lambo os dedos para evitar desperdícios. Quando rapo a tigela da bateira depois de colocar o bolo no forno (o meu indicador é o melhor salazar). Quando tiro um fiapo de bacalhau que ficou entalado nos dentes (não é bonita esta imagem, eu sei, mas é real o alívio quando liberto o fiapo). Quando consigo finalmente puxar uma pele do canto da unha, que já era fonte de irritação há dias.

Em tempos de higiene redobrada, de álcool gel com fartura, sinto que o que mais anseio, mais do que a liberdade de movimentos, é poder voltar a usar as mãos sem tantos receios. Tocar na minha cara as vezes que me apetecer. Afastar os cabelos. Espremer borbulhas e tirar pontos negros. Coçar os olhos com gosto. Pôr a mão na boca para tapar o sorriso ou bater na testa, sinalizando que reconheço a minha própria estupidez.

Por falar em testa, umas das primeiras coisas que quero fazer quando isto tudo passar é dar umas bélinhas bem dadas, bem sonoras, em testas desprevenidas.

É assim que ando à espera que isto tudo passe. Com a cabeça apoiada nas duas mãos e os cotovelos em cima da mesa.