Os cavaleiros do Apocalipse

O meu amigo Corvo – dono de um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos – está de boca aberta, com um palito entalado entre dois dentes. Ele agora faz comida para fora, take-away, mas vende pouco, quase nada. Passa o tempo a ver televisão, enquanto espera por clientes. Tem a vista cravada no ecrã, como se de lá brotassem grandes revelações. Vou espreitar. Afinal é um filme. Começou agora mesmo. Fico a ver aquilo.

São quatro pescadores que se perderam no mar. Mas, para já, estão em terra firme e nada acontece. Aparecem grandes planos dos seus rostos. Quatro rostos muito queimados, cheios de fendas, embora não sejam assim tão velhos, pelo que as rugas devem ser postiças.

Depois, vê-se uma aldeia à beira-mar. Mostra-se uma rua estreita por onde passam duas velhas vestidas de negro, caminhando devagar, muitíssimo devagar, como se tivessem dores nos ossos e na alma. Atrás delas vai um cão rafeiro, também ele preto. É ágil e passa-lhes à frente.

As paredes das casas estão carcomidas e o chão da rua é de areia.

A câmara segue as velhas, com a mesma lentidão com que elas andam e elas andam escanchadas, muito devagar, mesmo muito devagar.

A câmara desvia-se e entra num bar de miséria. Aproxima-se do homem atrás do balcão e ele fica a olhar para a câmara como se a câmara fosse uma pessoa. Mas a câmara não é uma pessoa. O homem, gordo e sebento, não diz nada. Fica só a olhar para a câmara como se ela fosse uma pessoa prestes a falar. A câmara não diz nada.

Aquilo demora um bom bocado, como as velhas a andar escanchadas na rua.

A imagem muda e aparecem os quatro pescadores no preciso momento em que se fazem ao mar. A câmara está parada a ver a canoa afastar-se mar adentro. O plano é sempre o mesmo. Muito aberto, cheio de luz e azul, amplo como o infinito, longo como a eternidade.

O realizador decidiu ficar ali até o barco desaparecer, o que cria um nervosismo do caraças em quem está a assistir. Mas é de propósito, vê-se que é de propósito. Além do mais, a cena obedece a certas regras do cinema, quando a intenção é aborrecer de morte o espetador, fazendo-o sentir o peso avassalador da realidade sobre a ficção.

O barco continua a afastar-se muito lentamente, já é quase invisível no meio das ondas, mas é sempre visível na imaginação de quem o vê, por mais longe que vá, sempre presente, sempre aqui.

Ninguém falou ainda no filme. E já lá vão três quartos de hora. O que se tem ouvido desde o início é o som de uma guitarra portuguesa. Nada mais. E tudo é sombrio, escuro e triste, tudo menos o mar.

Quem estivesse distraído diria que o filme era antigo e a preto e branco, talvez dos anos 60. Mas não é uma coisa nem outra. É a cores e de 2019. Ganhou prémios e tudo em festivais internacionais.

De repente, o ecrã fica escuro. No lugar do Corvo, muita gente aproveitaria para mudar de canal. Mas ele não. Ele continua a palitar os dentes e a olhar embasbacado para o ecrã e o ecrã já está negro há demasiado tempo, como duas velhas a andar escanchadas numa rua de areia.

– Deve ser uma avaria – diz o Corvo, esboçando a vontade de avançar para o televisor, para lhe dar uma pancadinha nas costas, como se fazia antigamente.

Nisto a imagem regressa e vem acompanhada por um som estrondoso, altíssimo, um barulho do caraças. É uma tempestade em alto mar.

O Corvo estremece e baixa o volume, utilizando o comando à distância.

O ecrã fica negro outra vez. E silencioso.

O Corvo franze a testa, intrigado.

Passado um bocado, aparece a palavra “Perderam-se”. E depois “Fim”.

Logo a seguir, começa o noticiário.

O Corvo diz:

– Nenhum dos personagens abriu a boca em todo o filme.

Olha para mim e remata:

– Isto é que é fazer filmes, porra!