A Cultura e a lição dos dias suspensos

Suspendemos a vida comum. Já nada é como era: nem o tempo, nem os lugares, nem as relações. Temos aprendido aquilo que nenhum sistema político ou religião ou filosofia conseguiu: a lição dos dias suspensos.

É como se vivêssemos num intervalo: o que era fundamental deixou de o ser, já podemos passar sem um grande número de coisas, já não é questão de vida ou de morte ir tomar um café à rua ir ao ginásio, pintar o cabelo ou cuidar das unhas.

Estamos num “entretanto” que, às vezes, se veste de angústia, outras não, que, às vezes, nos parece oportunidade, outras não; mas que nos obriga a olhar para a nossa condição de gente. Sem pressa, somos confrontados com uma realidade que não existia dentro dos nossos padrões. Sem pressa, somos confrontados com a verdade que mora dentro das nossas casas.

Percebemos, então, a importância que a cultura tem tido por estes dias de confinamento: são visitas guiadas a museus, é a possibilidade de conhecer um património que nos pertence, são concertos oferecidos por artistas, são histórias construídas a várias mãos, são poemas partilhados, apenas porque sim, são imagens e desenhos e fotografias e livros, são filmes vistos em família, é a programação adaptada das televisões.

A cultura salva. Salva a nossa humanidade.

Registo, hoje, aqui – serve para isto esta crónica – o esforço de todos os que, apesar do medo, apesar da dor, apesar da angústia destes tempos, povoam as redes sociais e os televisores de conteúdos que nos ajudam a encontrar a esperança. Hoje, tenho em casa, todos os museus, todas as bibliotecas, todos os ateliês, todas as salas de concerto. Hoje, tenho em casa quem me desafia a pensar noutras coisas, quem me ajuda a ocupar os meus, quem me faz rir e emocionar, quem me traz o mundo.

A cultura salva. Salva a nossa humanidade.

Depois, quando formos livres outra vez, vamos saber agradecer, conhecendo o que é nosso, abraçando o que é nosso e dando graças a Deus porque há tanta gente – que está a sofrer como nós – que não desiste de nos oferecer a Beleza e a capacidade de sonhar.

A cultura salva. E a nossa humanidade agradece.