A substância mais resistente

"Ela perguntou-lhe num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia.

É verdade – respondeu ele – mas será melhor não acreditares."

A frase é do livro 'O Amor nos Tempos de Cólera' de Gabriel Garcia Marques. A vertigem de acreditar no amor e no seu poder foi profundamente nossa. Mesmo que a racionalidade nos dissesse o contrário, primeiro em surdina e depois num daqueles gritos que tudo calam, até mesmo a crença. 

Só que o amor permanece. É talvez a substância mais resistente a tudo. À tragédia, à morte, à ausência, ao mundo.

Era tão difícil não acreditar na tua crença. Logo na tua crença tão ameaçada pelo que se expandia terrivelmente na tua cabeça. Ameaçada pelo cansaço, pelo veloz cair do corpo. E tu contavas tudo isso sem eufemismos. Contavas para que eu soubesse da tua atenção a tudo o que se alterava por fora e que era o espelho de dentro. E, ainda assim, chamaste-me a uma vida possível.  Porque era verdade, mesmo sendo melhor não acreditar.

É isso que dizem os livros e tu, como ninguém, sabias que os livros diziam tudo. A verdade e o seu avesso. Que tudo no mundo existe para chegar a um livro, como aliás alguém já disse, também num livro ou sobre um livro.

Talvez seja por isso que é difícil não transportar ainda a luz da casa sobre o lápis na tua mão, a guiar o sublinhado de uma urgência. E o teu sorriso quando te interrompia a urgência para uma outra: a urgência de nós.

A nossa plateia não entendia nem a luz, nem os livros, nem a urgência, nem muito menos a nossa crença. E, sobretudo, não entendiam aquele amor tão tardio e ao arrepio do fim.

Mas também nós sabíamos que para acreditar é preciso estar dentro. Totalmente dentro. Mãos e cabeça submersos pela água. Daí talvez o nosso fascínio pela chuva torrencial que às vezes rodeava a casa. E tu falavas na barca que tinha um cão a conduzir o nosso destino dentro. Sim, tal como o nosso poeta comum, também nós tínhamos um cão que tinha um marinheiro. Dois marinheiros para sermos certos. Éramos nós e navegávamos contra todas as tempestades. E todos sabemos como as tempestades invisíveis são as piores, as mais mortais, as mais tristes no fim. São da mesma substância do amor e resistem a tudo.

Lembraste da música? Will you miss me when I burn? Sim, meu marinheiro, as canções também falam verdade, mesmo quando não.

Até os filmes sabem de nós.

Retenho um diálogo de 'Nostalgia' de Tarkovsky:

- O que deveria acontecer?

- O que quiseres. Tudo o que precisares. Mas, no mínimo, é necessário que te ajoelhes.

Não sei se deste conta das vezes que me ajoelhei diante de ti no fim. Era a única forma de estar rente à tua e à minha dor. Era a única oração que conhecia. De joelhos rente à tua queda. A cair contigo. A levantar-me contigo.

O amor é a substância mais resistente, mesmo quando anda de joelhos e já não consegue resistir mais ao fim.

Para o Luís, que acreditou e me fez acreditar.