O mundo na cabeça dos outros

O meu pai disse-me que se não fosse o Tonecas já estaria mudo de tanto não falar com ninguém e, de facto, o cachorro é entre nós o único que parece estar porreiro, mesmo porreiro, já que os outros –  os vivos e sobretudo os saudáveis –  andam por aí perdidos em filosofias e agonias e fantasias, ao passo que o Tonecas corre no quintal como se nada fosse, sempre alegre e bem disposto, a morder e a roer tudo o que apanha, roupas e flores, sapatos e toalhas, a cauda também, e o meu pai, às vezes, perde o juízo, fica estuporado e fala alto, insulta-o com palavrões – seu isto, seu aquilo – repreende-o como se fosse uma criança – vais apanhar, vais apanhar tantas – mas depois começa a rir e diz com doçura:

– Tonecas, meu querido, se não fosses tu, eu já estava mudo há tanto tempo!

O mundo na cabeça do meu pai possui um elevado grau de amor ao irracional e eu fico a pensar que na minha cabeça o mundo também é bastante irracional.

– Vês, Tonecas, não passa ninguém no caminho! – Diz o meu pai.

E o cachorro fica a olhar para ele com atenção, move a cabeça cheio de graça ao ritmo dos gestos, como se estivesse a ler uma explicação do universo, talvez a mais correta ou se calhar a mais errada, uma explicação assim muito profunda e sábia, e a seguir retoma as suas atividades caninas de rabo a abanar sem fazer caso do que ouviu.

O mundo é sempre o mesmo na cabeça do Tonecas e eu fico a pensar que também deve ser sempre o mesmo na minha cabeça.

Mudo de casa. Vou ver a minha tia Conceição e alimentar as duas cadelas que lhe fazem companhia há mais de dez anos. As cadelas estão velhas e esqueléticas, porque a minha tia entrou sem retorno na demência e deixou de cuidar delas, não tem tino para isso, não tem tino para si, não tem tino para nada, para ninguém. Ainda sabe quem é – disso não desiste, grita, dá berros que alarmam a vizinhança e não se pode fazer nada por isso – mas perdeu-se no tempo e não reconhece ninguém.

– Ah, é o senhor do pão.

Diz ela quando me vê chegar, mesmo quando eu apareço sem pão, sem nada.

– Ponha aí em cima da mesa.

E eu respondo:

– Está bem.

As cadelas, pelo contrário, sabem muito bem quem eu sou e esperam por mim para lhes salvar o dia. Antes eram robustas, pujantes, mas depois caíram no esquecimento da tia e também caíram no esquecimento do mundo, na preguiça e na falta de vontade da gente, e começaram a passar fome, não só elas, como tudo à volta da casa, o jardim, os poios, as árvores, as paredes, o chão, a casa em si começou a passar fome, tudo começou a passar fome, tudo menos os ratos e o mato e o abandono, esses cada vez mais gordos e abundantes.

Agora, vou lá todos os dias alimentá-las e vejo-as outra vez mais luminosas e depois fico a falar um bocadinho com a minha tia, mas ela não sabe quem eu sou, nem se lembra que ontem estive lá, e queixa-se da solidão, pergunta pelas irmãs – aquelas pestes nunca mais apareceram – conta-me que ainda na semana passada estiveram juntas, como se isso fosse possível, almoçaram um guisado de galinha, galinha de casa e semilhas da fazenda, mas depois elas nunca mais apareceram, nem podiam, nem podiam, porque estão todas mortas e ela não se lembra disso, nem eu lhe digo, nem eu lhe digo.

– Penso que devem vir hoje – diz ela. – Talvez mais logo.

O mundo já não é o mesmo na cabeça da minha tia e eu fico a pensar que talvez também já não seja o mesmo na minha cabeça.