A vida é um lugar estranho

A vida é um lugar estranho. Podem passar anos que se materializam como um simulacro e depois a realidade faz-se sentir com uma intensidade para a qual não estávamos realmente preparados. Afinal, como estar preparado para algo que, na essência, desconhecíamos profundamente?

Como estar preparado, por exemplo, para este ano tão estranho nas nossas vidas? Este ano em que o mundo parou de forma tão real e impensável.

Ontem estava a olhar a noite e havia um silêncio por cima de todas as coisas. Um daqueles silêncios que antes podiam ser apenas imaginados. As luzes nas casas à volta não tinham um som. Não havia ali nada que me devolvesse o menor sentido de música ou de ruído.

Lembrei-me do fascínio que as luzes dentro das casas exerciam em mim quando era pequena. Gostava de imaginar o que estaria a passar-se por detrás daquelas janelas. Que vidas? Seriam parecidas à que me aguardava quando chegasse a casa? A mãe em azáfama pela cozinha, os irmãos de frente para o único canal de televisão, o cão naquela alegria de fazer parte de nós, o gato no lugar mais alto a salvo de tudo, até do nosso excesso de ternura.

As casas e as luzes dentro delas sempre exerceram em mim um certo fascínio. Acho que, acima de tudo, porque eram lugares de regresso. Lugares que acolhiam o mundo quando este se fechava lá fora. Daí talvez a sensação estranha de agora o mundo passar-se quase que inteiramente dentro de casa. De já não haver regresso, mas apenas permanência ininterrupta.

A casa permanentemente habitada e, apesar disso, silenciosa, porque impedidos de transportar o som do dia para dentro do fim.

Estes dias têm sido estranhos porque o confinamento mistura na minha cabeça todas as casas a que conheci o chão.

Nos sonhos, misturam-se as casas numa arquitetura do caos. Piso o chão da infância e com ele regressa o pai que já não está, a inocência que já não é, a alegria cada vez mais rara, o futuro que não se conjuga por impossibilidade de fuga.

A segunda casa que se impõe nunca é a que habito. A segunda casa é, afinal, a primeira. A única onde foi possível uma verdade de vida.

É uma casa agora às escuras, mas onde existia tanta luz que cegava, sobretudo o coração. E existia a nossa respiração e o sorriso e a cumplicidade e esse lugar afinal tão habitável que é o amor.

Mas foi uma casa breve. Um tempo feito de uma velocidade que sempre foi anacrónica por falta de tempo e de relógios em sintonia com a nossa urgência e com a nossa desesperada falha.

Lutámos de corpo inteiro contra a morte dentro da tua cabeça, contra a morte no centro do meu corpo, contra um tempo ao qual chegámos atrasados.

A vida é um lugar estranho. E estar presa a uma casa real, que não é, afinal, a casa real, intensifica esta experiência de não-tempo que, de repente, se impôs por cima de todas as coisas.

Há esta intensidade de tudo e uma aguda certeza de que chegamos a uma qualquer casa, uma espécie de fim de jogo.

Eu já sabia que nada voltaria a ser como dantes. Agora acho que sabemos todos. Cada um na sua forma de despedida e de recomeço.