A casa vazia

Gosto de casas vazias, sem nada lá dentro, nada mesmo. É uma metáfora da solidão na vida. Uma casa pertence sempre a alguém, mas vazia ainda não é de ninguém. Uma parte de mim é assim: uma casa vazia. A sua luz é ímpar e a escuridão indivisível. A sua memória é inarrável, tal como o seu quotidiano e o seu futuro. Os sonhos, a esperança e os pesadelos também são inarráveis e os segredos não têm voz que os diga, nem recanto que os oculte, nem alma que os chore e sofra – avolumam-se em toda a parte, invisíveis e penetrantes. O dizer amo-te perde-se no silêncio e o dizer vem comigo não traz ninguém pela mão e o dizer deixa-me em paz, deixa-me em paz, não expressa qualquer ódio. Tudo é único e sem partilha possível.

A Pat diz:

– Estás inspirado, estás sempre a escrevinhar.

E eu penso há muitos anos que vivo em lugares que não são meus e tudo o que tive nesses lugares foi apenas eu, sempre eu a pensar que o indispensável das coisas cabe numa trouxa pequena, eu a prometer – e hei de cumprir, um dia hei de cumprir – vou dar uma volta ao mundo sem bagagem, ai vou mesmo. Quando isto melhorar e, claro, se eu sobreviver, vou dar uma volta ao mundo sem bagagem. Sim, quando o ar se tornar respirável e os olhos se erguerem do chão e a distância entre as pessoas alcançar outra vez a proximidade do amor, hei de sair em viagem de mãos a abanar, porque tenho a certeza que o indispensável das coisas cabe muito bem numa trouxa pequena e o resto, todo o resto, vai à vontade e com folga dentro do coração.

Dinheiro, levo pouco. De resto, nunca o tive para além de pouco, às vezes nada, e mesmo assim rodei a Terra e tornei vivo, aparentemente são e salvo. É o que mais conta – a sanidade e a salvação. Não vos parece? Os dias de hoje bem o provam: poupa-se a vida e que se lixe a economia. Para já é assim. Ainda bem. Mas depois, certamente mais cedo do que se espera, vai ficar tudo como antes. Quem está lixado, mais lixado fica. Quem está bem, melhor continua. Talvez se percam algumas manias, talvez se evite um ou dois passos sobre a futilidade, talvez se use mais vezes o simples em vez do debruado a ouro, mas no fundo, no fundo, vai ficar tudo igual. Ou seja: salva-se a economia e que se lixe a vida.

A história é sempre a mesma.

A Pat diz:

– Vamos dar uma volta ao quarteirão.

E eu a pensar onde é que me senti em casa pela última vez? Onde fica essa casa que senti minha pela última vez? Onde? Nas zonas altas de Santo António? A casa do meu avô na Rampa? A casa de meu pai na curva da Comandante Camacho de Freitas? O duplex na Ajuda? O T0 na Calçada de Santa Clara? A cabana na Alta Zambézia? Ou terá sido o quarto na missão em África? Se calhar foi o quarto num hotel qualquer ou numa pensão rasca onde pernoitei nas andanças pelo mundo, talvez aquela espelunca no Tibete, ou aquele sítio tão acolhedor em Mopti, ou o cinco estrelas em Bora Bora. Eu sei lá, eu sei lá onde fica a minha casa. O que eu sei é que para trás fica a ruína da casa vazia dentro de mim.

A Pat diz:

– Vamos para casa.