A fragilidade que exige uma coragem

"Como um poeta que se esforçasse por ser elogiado por outra coisa - que não a fragilidade que exige de imediato uma coragem - , certos homens insistem em não esperar a morte e devido a essa distração são sempre apanhados – como a mulher adúltera pelo marido – descompostos, de corpo desnudado, exibindo por falha uma luz imoral que sempre juraram não ter. E porque observados, e incapazes – eis o pior – de acionar o mais leve movimento de pudor, os que fingiam imortalidades caem por completo sem um único preparativo terminado. Morrem no momento em que traem (...)." O excerto foi retirado do livro 'Breves Notas Sobre o Medo', de Gonçalo M. Tavares.  O sentimento que anima a citação é a profunda incredulidade com que se olha algumas das reações de homens que, perante o momento atual, exibem sem pudor a "tal luz imoral".
Nus perante o medo, revelam não "a fragilidade que exige de imediato uma coragem", mas a profunda e obscena infâmia de que também somos feitos.

É verdade que estes tempos estranhos que estamos a viver revelam, muitas vezes, o melhor de que somos capazes, mas quando revelam o pior, esse pior surge com a violência de um embate sem amortecedores. E as falhas da nossa humanidade ficam expostas como uma ferida aberta, feia, putrefacta, sem cura nem perdão.

Deixo aqui de parte os loucos que governam o mundo (Trump e Bolsonaro, desde logo), não porque a loucura que transportam os redima, mas porque me interessam os outros, precisamente aqueles que revelam "a luz imoral que sempre juraram não ter".

Duas notícias chocaram-me sobremaneira nestes dias. A primeira foi a posição assumida pelo ministro das finanças holandês e pelo primeiro ministro, que rejeitaram a emissão de dívida conjunta, com Hoekstra a pedir, inclusivamente, que Espanha, que está no centro de um furacão humanitário sem precedentes, fosse investigada por não ter capacidade orçamental para fazer face à pandemia.  Já muito se disse sobre tudo o que esta declaração encerra de contrária ao sonho de uma Europa comum e solidária, ao próprio sonho e projeto europeu. Afinal, se nem isto nos une, nada mais o fará. Mas, acima desta falha, está uma outra: a profunda falha humana de que somos feitos e que fica assim exposta como coisa vil que é. E as perguntas nascem naturais face à incredulidade: como dorme esta gente, como abraçam os filhos, como se olham ao espelho, com que ritmo respiram, com que compasso exercem o coração, com que temperatura se revelam vivos? 

Mas quando ainda nem recuperámos a respiração e o ritmo cardíaco, já outra notícia nos derruba contra o chão: Centenas de ventiladores comprados à China pelas autoridades espanholas para reforçar os meios disponíveis em alguns hospitais foram retidos pela Turquia, que diz que a prioridade são os seus pacientes e que os enviará "dentro de algumas semanas" a Espanha.

Uma espécie de hierarquia de humanidade, uma escala geográfica para a carne que morre de igual forma em todo o lado. Mas há quem pense que pode respirar primeiro, que a sua lógica de respiração pode suspender o ar do outro.  Uma apneia humana que nos sufoca e que não tem explicação possível, nem perdão.

E se este texto começa por citar Gonçalo M. Tavares, é quase inevitável que termine citando parte de um poema de Alexandre O'Neil. Uma citação que se quer certa, mas que se quer sobretudo grito de alerta para que não aconteça: "O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos. Sim/a ratos."

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas