Súmula do ser invisível

Agora só há uma palavra no mundo e com essa palavra só é possível um texto na vida. É sempre a mesma palavra, sempre o mesmo texto, seja lá onde for, dia e noite, a toda a hora, em qualquer boca, na pedra e no papel, no papel e na pedra, em qualquer boca, sempre a mesma palavra, sempre o mesmo texto. Não há mais nada no mundo, mais nada na vida. E o resto, ou seja, tudo o que vai daqui ao futuro e do futuro ao infinito, cruzando o passado e o antepassado também, não merece ponto, nem vírgula, nem sequer linha abaixo travessão, não merece nada nem respeito. É apenas um vazio incomensurável como a solidão do indivíduo na hora por ele escolhida.

Porra!

Agora só há uma palavra no mundo e com essa palavra só é possível um texto na vida, seja lá onde for, dia e noite, a toda a hora, em qualquer boca, na pedra e no papel, no papel e na pedra, em qualquer boca, sempre a mesma palavra, sempre o mesmo texto a contar os mortos e os vivos, a separar uns dos outros, os vivos e os mortos, em contagem diária crescente ininterrupta, a palavra do mundo, o texto da vida, sempre a dizer a mesma coisa. O medo. O silêncio das cidades. Os heróis. Os prevaricadores. As leis. A desgraça monstruosa que vem a caminho e a salvação também a vir pelo mesmo caminho. Avistámo-las da nossa janela – a desgraça ao longe e a salvação também ao longe – já estão dentro de casa, trespassam corações com a mesma palavra, com o mesmo texto, sempre iguais em forma de punhais e castiçais, punhais e castiçais, punhais e castiçais. Venha o diabo e escolha. Sim, venha o demo e cumpra a solidão.

Porra!

Agora só há uma palavra no mundo e com essa palavra só é possível um texto na vida, seja lá onde for, dia e noite, a toda a hora, em qualquer boca, na pedra e no papel, no papel e na pedra, em qualquer boca, sempre a mesma palavra, sempre o mesmo texto a dizer sejam responsáveis e solidários, mantenham-se parados e distantes e vivos e aos outros também, vivos, distantes e parados, álcool nas mãos, mãos no álcool, porque a palavra é sempre a mesma e não se cala e o texto também não se cala, seja lá onde for, dia e noite, a toda a hora, sempre a fazer nada com tudo e tudo com nada, a dizer sempre a mesma coisa sobre a contagem diária crescente ininterrupta de vivos e mortos, vivos e mortos, vivos e mortos. Venha o diabo e escolha. Sim, venha o demo e decida a solidão.

Porra!

Agora só há uma palavra no mundo e com essa palavra só é possível um texto na vida, seja lá onde for, dia e noite, a toda a hora, em qualquer boca, na pedra e no papel, no papel e na pedra, em qualquer boca, sempre a mesma palavra, sempre o mesmo texto a dizer isto é muito sério, meus amigos, isto é muito sério e vai ficar tudo igual como sempre e mais diferente ainda do que nunca, sem passado nem antepassado, ao passo dos que fazem tudo e dos que nada fazem. Anda lá seu má língua de merda, anda lá invejoso, bufo, vigilante da treta, mentiroso, cabrão, filho da puta, e tu também, salvador disto e daquilo, anda lá salvador do mundo, explica-me o futuro e salva-me do presente, divide o grau zero do sacrifício pela humanidade, fala-me da guerra, menino pudico, anda lá, dobra e desdobra a minha existência em todas as dimensões da comédia e da tragédia e sobretudo da biologia, menino certinho, coitadinho, lindinho.

Porra!

Acabou!

A-ca-bou!

Vou ver um filme.

Texto mesmo o sempre, palavra mesma a sempre, boca qualquer em, pedra na e papel no, papel no e pedra na, boca qualquer em, hora a toda a, noite e dia, for onde lá seja, vida na texto um possível é só palavra essa com e mundo no palavra uma há só agora…