Somos todos equilibristas

Há mais de duas semanas mandaram para casa quem podia ir para casa, começando pelas crianças e professores. Depois, aqueles que pudessem fazer teletrabalho foram aconselhados a fazê-lo. Por fim, só as atividades essenciais se mantiveram a funcionar, com regras específicas. E passámos todos a ser equilibristas.

Assistimos calados e circunspectos aos noticiários e vemos que, em tempos de contágio acelerado, um mais um são muito mais do que dois. Ainda a digerir essa constatação, um sinal sonoro leva-nos a olhar para o telemóvel e a sorrir com mais um vídeo ou um ‘meme’ partilhado. E vamos nos equilibrando entre o medo e o riso.

Seguimos com rigor o conselho amplamente apregoado de ficar em casa, mas, ao fim de uns quantos dias, decidimos seguir também a voz que nos sopra ao ouvido: “podes sair só para beber um café, afinal tens que ajudar a tasca do bairro a não falir.” E vamos equilibrando a nossa obediência com a nossa transgressão.

De volta a casa, e com a energia extra da cafeína e da boa ação praticada, atacamos freneticamente a limpeza de superfícies, em casa e no prédio. Em dois tempos, acabamos com o álcool, com a lixívia e com o vinagre. E amanhã teremos que sair para comprar mais, além de uns cremes para as mãos, que já parecem duas lixas. E vamos nos equilibrando entre o bom senso e o exagero.

Nos hospitais, lares de idosos, supermercados, farmácias, organizações do poder central e local, e instituições de solidariedade, o nível de dificuldade é ainda maior e os artistas estão noutra liga. Têm a heróica tarefa de equilibrar o realismo que vivem no dia a dia com o otimismo dos que estão em casa.

Enquanto sociedade, não somos todos santos nem todos pecadores. A maioria de nós está a fazer o melhor que pode para ficar no meio, entre uns e outros. Acontece que a impunidade é tão contagiosa como o vírus, e se o vizinho do lado prevarica e não lhe acontece nada...

Há quem já defenda que a melhor medida para a saúde pública e para a economia seria a aplicação de multas pesadas para a desobediência às regras do estado de emergência, que a advertência só não chega. Talvez São Pedro tenha sido da mesma opinião, ao ter mandado vir o frio e a chuva como uma espécie de multa coletiva.

Até que tudo passe, ou pelo menos estabilize, continuaremos numa precária corda bamba.