Um passeio no jardim

Já noto o cabelo mais comprido e branco e a barba também, mais comprida e branca, sobretudo branca. Sinais de risco acrescido. Se sobreviver a isto, hei de sair daqui bonitinho, não haja dúvida! De resto, prometi não tocar com objetos cortantes nos meus pelos enquanto a situação durar. É um ardil para sentir melhor o efeito da vida e também para fintar a passagem do tempo, porque o tempo agora vai demorar muito a passar. Por isso, espero sair daqui como um verdadeiro homem das cavernas. Ou seja: vivo.

Vinte passos para lá. Encosto o nariz no vidro da janela virada a norte. Vinte passos para cá. Debruço-me na varanda virada a sul. De um lado vejo a serra, do outro o mar. Um jardim atrás, uma rua à frente. Ninguém no horizonte. Vinte passos para cá, vinte passos para lá. Esta não é a minha casa. A minha casa fica lá em cima, numa curva da Comandante Camacho de Freitas, onde o meu pai mora sozinho por estes dias e eu temo por ele, porque tem 83 anos e é doente oncológico.

Ele não é daqueles velhotes que gostam de andar por aí a passear, nada disso. Prefere ficar em casa, com o cachorro sempre atrás, à volta da fazenda, ao redor dos pensamentos. À primeira vista, não me parece lá muito preocupado com a situação. Nem com a doença dele, nem com o mal do mundo. Vejo-o conformado, sem queixas de maior face aos acontecimentos, e penso que esta é mesmo a grande diferença que há entre as pessoas que têm a vida quase toda para trás e as que a têm ainda quase toda pela frente.

– Já lavou as mãos, pai?

– Hoje até fez sangue.

Ele não é de andar por aí a passear, não senhor, mas na semana passada andou todos os dias em tratamento no hospital, para baixo e para cima, todos os dias à medida que isto ia crescendo e crescendo, e eu com ele, para baixo e para cima, para evitar os transportes públicos e garantir o menor contacto possível com outras pessoas. Agora é assim – longe das pessoas. Mas eu também sou uma pessoa, não há como negar, eu também sou uma pessoa.

– Não se esqueça de lavar as mãos.

–  Vou já lavar – diz ele, ao sair do carro.

– Lave muitas vezes por dia.

E ele:

– Maldita praga que caiu em cima da gente!

O cachorro aparece no cimo da escadaria a abanar o rabo e ele esquece logo o resto do mundo.

– Tonequinhas, anda aqui c’dono!

Se eu estivesse sozinho na vida, provavelmente não tinha medo de nada, nem sequer das mil e uma mortes que há na solidão. Mas assim, não. Assim, tenho medo de muita coisa, muita mesmo, e também sou egoísta, claro que sou egoísta. Por isso – por medo e egoísmo – vivo sonhos horríveis. Vejo-me nu num jardim quadridimensional, a colher sentimentos de culpa onde antes semeei boas intenções, flores deformadas que ardem no meu coração em forma de abismo. Acordo sobressaltado, alarmado. Por um instante, perco a esperança e penso que o futuro vai ser assim: um passeio em carne viva no jardim dos sentimentos de culpa, a colher não-me-deixes em fogo, cáusticos, infernais.

É como digo: se sobreviver a isto, hei de sair daqui bonitinho, não haja dúvida! O cabelo comprido, a barba esgrouviada e branca, sobretudo branca – um verdadeiro homem das cavernas! A seguir, porém, admito rapar tudo a pente zero, barba e cabelo, de modo a parecer mais novo num mundo que também vai querer ser novo.

Mas não prometo nada. O mundo também não.