Sobre a Primavera em tempo de agora

Hoje, meus amigos, rezo esperança. É verdade que o mundo está mais parado, que as nossas vidas estão mais suspensas, que a economia se encontra num compasso de espera. Nos jardins, porém, as flores enfeitam o nosso olhar; as aves procuram um lugar para os seus ninhos, surpreendidas com o silêncio. As aves não sabem que os homens penduraram o tempo no estendal dos dias e estão a aprender outra maneira de encarar as coisas e o silêncio. As aves não sabem.

Estamos todos à procura das novas geografias que construímos dentro de casa, descobrimos os caminhos de cada um e dos lugares comuns, os silêncios de cada um e as palavras comuns, os medos de cada um e a coragem comum.
São dias de recolhimento, estes. E o sol não sabe a esperança que nos dá, sempre que nos sorri e nos diz

– Presente. Estou aqui.

Claro que nos dói este tempo. É uma dor de todos. É uma dor de irmãos. É por isso que, hoje, rezo esperança: que os dias comuns regressem depressa, agora que aprendemos a dar valor a que não temos (mas que vamos recuperar): as gargalhadas dos amigos, os abraços que confortam tantas tristezas, a carícia do mar no nosso corpo, o modo despreocupado de respirar e de falar e de andar e de entrar e de sair, a liberdade.

Rezo esperança, sim. Porque sei que não há noite que dure para sempre, que não há medo que não tenha fim e que a Humanidade é capaz de vencer, como já o fez, em outros momentos.

A primavera chegou. Igual. A terra está a alindar-se para quando nós voltarmos para a contemplar. E nós, desta vez, vamos estar atentos. E agradecer-lhe o cuidado. E voltaremos às ruas. Diferentes. Mais fortes. Mais gente.