Aquele lugar de algodão doce

Olha, isto é o diabo solto. E a pessoa não tem com quem reclamar e dividir queixumes. Já não temos quem nos avise dos maus augúrios só de olhar para o céu e para lua, que está com aros, cor e tamanho diferentes.

Vejo-me em diálogos imaginários. Oiço-te na minha cabeça: “Ai, meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus outra vez”. E depois gozávamos contigo e tu rias para espantar “ui nervos”. Também dizias: “Eu quero é saber do meus”. O que era uma mentira verdadeira. Primeiro a família e depois os outros, mas cabiam tantos depois disso. Talvez nos fechasses em casa a todos se pudesses e depois metias-te na rua só para fazer mais isto e mais aquilo que era para nosso bem, e até ver nunca se viu vírus nenhum pegar na Pedra Redonda. Só lagartas nas couves e o lume que embravecia no verão e levava tudo à frente.  Um pratinho de sopa acalmava tudo. Estômago e alma.

Tinhas essa mania de poderes de super-heroína discreta. E se estivéssemos cada uma para seu lado do atlântico, que era o mais certo, à distância de uma chamada, íamos ‘brigar como cachorros’, que eu tenho a certeza que ias arranjar inquietudes para sair de casa. Estou a ouvir-te na minha cabeça: “Ah, rapariga, estive em casa, só fui ali à casa da tia, da avó…do tio, para lhe deixar um pratinho de milho”. E de certeza que ias servir um cafezinho à Maria Júlia, que apesar do que dizias nunca foste de isolamentos. Alguma vez?!. Seria uma carga de trabalhos, confortante, porém.

E não ias gostar que te dissesse que não posso ficar em casa, que temos responsabilidades com os outros. Que preciso de ir, sabe Deus como. Olha, só me apetece fazer pão. As melhores memórias que tenho da avó era quando fazíamos pão. Pode, claro que pode ser bolo do caco, mas pão era outra coisa. Sei lá como vou fazer com o fermento. Ai mulher, isto é o diabo solto, bem dizias tu, que nunca gostaste de anos bissextos.

Olha, a tua neta é que tinha razão. Aquintordia (não gozes) disse: “Ainda bem que a avó já não está na Madeira, que ao menos assim não apanha coronavírus”. Espero que tenha razão, que não chegue aí nesse além de algodão doce onde te imagino. Estamos bem. Talvez faça milho. E sopa de trigo.