O guia para a sobrevivência

Gosto de pensar que manter um pensamento positivo ajuda a manter uma estável saniedade mental  – bastante, por sinal. Acredito piamente em sermos luz em tempos escuros. Empáticos em tempos de egoísmo. Em prezar a paz em tempos de guerra. O amor em tempos de ódio. E a esperança em momentos desesperadores. Face ao cenário de filme apocalíptico que vivemos urge a necessidade de falarmos sobre as coisas. Por mais filtros que o meu cérebro neste momento queira impor a tudo o que essa passa no mundo, a verdade é que ao mesmo tempo não há outra coisa que seja mais importante focar a nossa preocupação.

A questão que se coloca é: “como não surtar” em tempos de quarentena? Sabemos que é necessário. O exemplo do resto do mundo diz-nos isso. E nós sabemos que é a única maneira – ou a mais eficaz – de impedir o contágio em massa. Mas o ser humano é complicado. A mente humana é matreira e mudar hábitos de vida da noite para o dia pode mexer com muito mais do que simplesmente a nossa liberdade de movimentação. A mente é uma das principais inimigas desta nossa quarentena, mas que destes limões possamos fazer limonadas.

Não que este seja um guia que vos vá dar respostas milagrosas para a ansiedade que possam estar a vivenciar agora, mas que pelo menos faça refletir um pouco.

Passo 1: Respirar fundo.

Passo 2: Estabelecer rotinas – ou se não for uma pessoa de rotinas, deixar-se levar pelo fluxo da sua vontade.

Passo 3: Esquecer tudo aquilo que as pessoas lhe dizem sobre o que está a acontecer. Focar-se nas notícias verdadeiras e os factos sustentados por fontes oficiais.

Passo 4: Não estar 24h/24h a falar no mesmo assunto – para isso, ver filmes, ler livros, tentar focar no trabalho caso esteja a trabalhar por casa.

Passo 5: Respirar fundo.

Passo 6: Não entrar em conflitos com os “colegas de cela” (aka família).

Passo 7: Tentar não comer a dispensa inteira para evitar sair mais vezes para ir ao supermercado.

Passo 8: Distrair a mente a ver conteúdos humorísticos – que não são muitos – que nos ajudem a sorrir em momentos como este em que literalmente temos motivos para chorar no canto da sala.

Passo 9: Entender que não há uma fórmula mágica, nem nenhum super herói que nos vem salvar com a sua capa vermelha esvoaçante. Somos nós e os nossos profissionais que trabalham nas áreas essenciais de apoio à sociedade que vamos conseguir superar esta crise.

Passo 10: Repensar sobre o mais importante. Numa sociedade que não para, não dorme, não respira. Num planeta que folgava por um segundo sem poluição no ar…. Quem somos? O que significamos? Somos assim tão importantes? Tão grandes? Talvez sejamos pequenos demais e esta pandemia vem tentar ensinar-nos mais do que ciência. Vem ensinar-nos sobre empatia. Sobre prioridades.

Sobre dedicarmos tempo aos nossos. Testar os nossos limites. A nossa paciência. Se soubermos girar o rumo desta história, talvez saiamos desta crise mais humanos do que as máquinas que antes eramos. Com muito mais amor, mais tempo e mais alegria para partilhar com o próximo.

Talvez este texto não seja de grande utilidade. Talvez não seja um guia, mas é um desabafo.Talvez não acrescente nada a ninguém. Provavelmente escrevo aqui mais do mesmo, ou até mesmo nada de nada. Sinceramente, em tempos de quarentena, tudo o que vem à rede pode ser peixe. Só espero que estes dias – tanto quanto sabemos, ainda infinitos – possam servir de reflexão a todos nós. A mim, podem ter certeza de que estão a alterar continuamente a minha pirâmide de prioridades desta vida. E muito provavelmente volto à vida com menos uns quantos neurónios. Um pouco mais “maluca” das ideias, mas certamente grata por saber que a resiliência humana é maior do que tudo o que podíamos alguma vez imaginar.

Fiquem em casa. Mantenham-se seguros. Até lá, vamos sobrevivendo – e se forem como eu, a ganhar uns kilos positivos na balança.