Entre a vida e a morte

Em direto na televisão, um homem chora aliviado, após receber os resultados dos testes a que fora submetido revelarem que não contraira a COVID-19 (Corona vírus disease-2019). São lágrimas de celebração de estar vivo, afastada que foi a ameaça da morte a pairar sobre os seus dias. Por contraste surge-me à mente a revolta do homem, há largos anos acamado, enfermo de tetraplegia que, perante as câmaras televisivas, afirma a sua vontade maior: morrer. Soa-nos antinatural, já que o normal para qualquer ser é o desejo de viver. E contudo, não conseguimos deixar de entender o quão difícil será a vida desse homem que quer morrer e precisa de quem o mate. Uma encruzilhada em que duas vontades colidem; a do próprio e a de quem lhe há de administrar o fármaco letal (Será que ele, neste momento, sonha ser uma das vítimas do vírus?).

Imagens destes dias em que o planeta foi abalado por um ataque viral cujas ondas de choque são impossíveis de prever. Com o fantasma da doença e da morte a pairar, embrenhámo-nos na definição de estratégias para as ludibriar, numa luta pela vida que vai modelando as nossas rotinas. E de tal forma nos envolvemos que até nos esquecemos que, poucos dias atrás, discutíamos o recurso à eutanásia, prática cuja despenalização foi, entretanto, aprovada pelo parlamento português. O tema da morte que nos encheu os fóruns e mesas de café durante semanas desapareceu deles, substituída pela luta pela sobrevivência.

Outras urgências que inflamavam as discussões noticiosas viram-se de súbito secundarizadas: a controversa construção de um novo aeroporto na capital do país tornou-se extemporânea num momento em que as companhias de aviação cancelam voos aos milhares e há um aconselhamento global para a redução de viagens. Pelo mundo continuam as mesmas guerras, os mesmos dramas de populações perseguidas, escravizadas, deslocadas, condenadas a uma realidade de desumanidade inconcebível. Contudo, tem sido parca a atenção dos media sobre eles, ocupados que estão com o problema que nos é mais próximo e nos torna incapazes de nos preocuparmos com o que quer que o extravase.

A instabilidade invadiu o nosso quotidiano: as escolas, fulcro em torno do qual se organiza toda a sociedade, suspenderam as atividades presenciais, colocando desafios inesperados às famílias, às instituições e às empresas das várias áreas laborais. Uma faixa da população acredita na necessidade deste esforço para evitar um possível contágio generalizado. Outros, por contraste, manifestam desprezo pelas advertências da DGS e conglomeram-se nas ruas, nas praias, nos bares, convencidos que gozam de uma imunidade qualquer, confiam na sorte ou apenas porque continuam em fase de negação da doença. Aos poucos, porém, mesmo os mais céticos vão acordando para o que parece inevitável.

A engrenagem complexa que é a nossa sociedade vê-se forçada a parar, a reformular-se de formas que desconhecemos ou, que conhecendo, ainda pouco ou nada experimentámos: teletrabalho, telescola, videoconferência, museus virtuais, etc. A busca de soluções, na tecnologia, na ciência ou na resolução dos pequenos nadas do dia-a-dia começam também a surgir, confirmando uma vez mais que, ao ser humano, “a necessidade aguça o engenho”.

Vamos todos cumprir a nossa parte, com serenidade e bom senso, enquanto aguardamos a descoberta do antidoto que aniquile o vírus, e nos devolva a normalidade, por certo, diferente da que antes tínhamos, mas que chegue tão depressa quanto possível.