Humor em tempos difíceis

Em tempo de quarentena obrigatória, por via do tal 19, confinados às quatro paredes da nossa casa, porque se sairmos à rua, como diz o brasileiro “o bicho pega”, nada melhor do que um pouquinho de humor para desanuviar porque, afinal, o stresse também pode agudizar os nossos males e, por isso, se diz que “rir é o melhor remédio”. Portanto aqui vai, hoje, uma crónica em forma de conto, ou, se quiserem, um conto adaptado para crónica.

Há muitos anos, muitos mesmo, lá pelas décadas de quarenta e cinquenta e tais, na cidade do Lubango que, para quem não sabe se situa no sul de Angola, havia uma farmácia cujo dono era um farmacêutico, tenente-coronel reformado. Era, dizia-se e com razão, que se tratava de um verdadeiro especialista na preparação de certos medicamentos daquela época entre eles umas hóstias no interior das quais colocava o quinino medicamento que, na altura, se usava para o tratamento do paludismo e que, como todos sabemos, é amargo até dizer chega.

Pois nessa mesma época na Huila, província da qual o Lubango é a capital, o seu Governador tinha a patente de capitão que, pela hierarquia militar, era inferior à do referido farmacêutico.

Conta-se que, e para dizer a verdade não sei porque razão, ambos se travaram de razões e desataram a trocar notas e ofícios com base nas mesmas razões ou falta delas. Pois bem, é aqui, exactamente, que entram as tais hóstias de quinino que a farmácia fornecia para tratamento do paludismo de sua Excelência o Governador e família.

Pois por razão da tal “troca de razões” veio, do Palácio uma nota que, pelo seu conteúdo, desagradou ao responsável da farmácia e, diz-se que, por telefone, se deu uma discussão em que, este, teria dito ao dito Governador que ele ainda “havia de engolir tudo o que dizia a referida nota”.

Tempo para lá, tempo para cá, hóstia de quinino para lá, nota para cá e o tempo foi correndo até ao dia em que, uma nota solicitava o envio de mais uma remessa do tal anti-palúdico.

Quando as solicitadas hóstias chegaram às mãos de Sua Excelência vinham acompanhadas de uma nota na qual se informava que “seguia uma nova remessa de hóstias, cabendo-nos informar Vossa Excelência que, ao tomar a última hóstia da remessa anterior, tomou, também, o último pedacinho da nota datada de ‘tantos de tal”.

Pois foi assim mesmo. Dentro das hóstias da última remessa foram, também, cuidadosamente rasgados, os últimos pedaços da nota em litígio que foi sendo distribuída, aos pedacinhos, ao longo de todas as que, nos últimos tempos, haviam sido enviadas para o Palácio.

Coisas do “antigamente na vida”, como escreveu o escritor angolano Luandino Vieira. Coisas que ficaram na memória “de nós” e que têm, pela sua importância, servido para talhar a nossa personalidade ou o que não é menos importante, para nos abrir um sorriso em tempos difíceis.