E agora… a guerra, a morte

Há dias o Lagarto acordou estremunhado às quatro da manhã por causa da música em casa do vizinho, altíssima, barulhenta, e pensou que estava outra vez no mato, debaixo de fogo, pensou que estava outra vez naquele maldito dia, o pior da sua vida.

O comandante do pelotão estava louco. Amanhecera louco.

O Lagarto olhou para ele e soube logo que se iam cometer atrocidades inclassificáveis naquele dia. O mal estava escrito nos seus olhos. O cabrão tinha os olhos completamente vermelhos, sanguinolentos, afogados em sangue.

Que se lixe, pensou. Que se lixe esta merda de guerra.

Depois pensou melhor e achou que, afinal, o comandante não estava louco. Bem vistas as coisas, ele era louco, tinha nascido louco. O comandante fora um bebé louco. Mordia as tetas da mãe, o filho da puta. Mascava-as com os olhos esbugalhados. A loucura do cabrão não tem nada a ver com a guerra. Vem do berço. É o que é, pensou o Lagarto. Vem do berço.

Pôs as mãos nos quadris e ficou à espera de ordens.

O pelotão andava no mato há três semanas. Tinha sido transportado de helicóptero para trás das linhas inimigas, embora o inimigo não tivesse propriamente uma linha. Mais do que um exército, o inimigo era um bando armado de maltrapilhos ou, para ser mais preciso, uma série de bandos armados de maltrapilhos que até nem se davam muito bem entre si. Estavam em toda a parte e em parte nenhuma. Eram toda a gente e ninguém ao mesmo tempo. Uma confusão.

A tropa regular desperdiçava munições sem fim a disparar para o mato, para o vazio, para o nada. Os maçaricos ficavam desorientados no meio do fogo, perdiam o controlo, enlouqueciam, provocavam acidentes e chegavam mesmo a atirar uns contra os outros, os cabrões dos maçaricos.

O pessoal das operações especiais funcionava doutra forma. Era racional, certeiro, impiedoso, cruel. Os relatórios, no entanto, contavam apenas a parte boa das operações. É sempre assim, já se sabe. A loucura, essa, é omitida ou coberta com um paninho muito leve, levezinho, como se se tratasse dos genitais da guerra, as suas vergonhas.

– Vamos jogar à bola com a cabeça destes filhos da puta – disse o comandante.

Sobreveio o silêncio.

Depois o Lagarto perguntou:

– Todos?

O comandante olhou para o grupo de aldeões amontoado num canto, mas não reparou em ninguém. Ou, se calhar, reparou num dos velhos, ou numa das mulheres jovens, das que tinham as mamas ao léu, ou talvez num bebé meio adormecido no colo da mãe. Eram dezanove ao todo e todos tremiam de medo. Não havia um que mostrasse coragem, ou qualquer coisa parecida com coragem, com aquilo a que se convencionou chamar coragem, que muitas vezes, como é do conhecimento geral, não passa de pura demência e imbecilidade. Estavam todos em pânico. Choravam, gemiam, estavam petrificados.

As palhotas ardiam ao fundo, com um doce crepitar.

O comandante estava sentado na cadeira do soba, um banco miserável de pau preto, com a G3 entre as pernas e o cantil na mão esquerda. Depois, levantou-se, colocou o cantil no estojo e atirou o banco para o meio de uma das palhotas em chamas.

– Todos, não – disse. – Só as crianças.

Em seguida, pôs a espingarda à bandoleira e sacou a faca de mato.

– Não podemos matar todos, precisamos de gente para assistir ao jogo – disse.

E avançou para o grupo de aldeões.

O filho da puta não é deste mundo, pensou o Lagarto. Há mais de três semanas que o aviso para não pôr a música alta e o gajo não me ouve. Hoje dou cabo dele.