O que fazer com o ar?

Tendo estado o mais próximo possível de alguém que sabia que podia perder o ar a qualquer momento, aprendi, então, que, chegado a esse ponto, há um foco no que é realmente importante. No amor, naquilo que nos dá sentido aos dias e à vida: poder acordar e ouvir os pássaros, abrir a janela para o dia, sentir a felicidade das pequenas coisas que afinal são imensas se pensarmos que as podemos perder. Os livros, as mãos, a ternura, a felicidade, a liberdade e o sorriso imenso. O infinito sorriso que guardo como casa.

Esta foi uma aprendizagem pessoal, dramática, trágica. Uma aprendizagem que ainda estou a integrar, à qual ainda tento sentir o peso certo, a atitude certa, a vida certa.

E foi neste processo que o mundo, em espelho mais vasto, se encontrou perante a possibilidade dessa perda de ar, de não conseguir respirar, por doença ou por medo.

O vírus que nos consome os dias e que nos ameaça os pulmões, centrou-nos no coração e na possibilidade da sua paragem abrupta.

É comovente pensar no que escolhemos fazer com o ar que nos resta. Os italianos, obrigados ao agora chamado distanciamento social, vão para as janelas cantar para os vizinhos, cantar com os vizinhos. Usam o ar que têm a sorte de ter nos pulmões para a música, porque sabem que é isso que nos salva no fim.

O que nos pode salvar será sempre a beleza e o poder olhar os outros, estar com os outros, mesmo que obrigados a uma distância segura. A melhor paisagem serão sempre os outros de nós. E a beleza do que o ar em nós é capaz de produzir: a música, a poesia, o amor.

Os que ainda têm ar, escrevem bilhetes aos vizinhos mais velhos a dizerem que podem ir ao supermercado ou à farmácia por eles. Porque são mais jovens, porque são mais fortes, porque, de repente, as probabilidades de cada um, a estatística trágica da vida, se faz mais real.

Os que têm ar, vão à varanda aplaudir os que cuidam, o que estão na linha da frente.
Sim, esta sorte que nos calhou é terrível, mas também é capaz de nos direcionar ao centro, ao importante, à vida.

Estamos a aprender a direcionar o ar para os gestos e para os movimentos que são capazes de criar a beleza e a humanidade. A música e as palavras que nos devolvem o humano em nós. Os gestos que, mesmo à distância, nos aproximam dos outros.

A doença é contagiosa, mas a beleza também. E temos visto a beleza de forma tão concreta que nos emociona até ao fundo.