Eu Absoluto Grotesco

Não semos nada. Cresci a ouvir dizer isto, assim mesmo, de forma errada, muito avilhoada. Não semos nada. E, de facto, acredito nisso. Somos nada. Sou nada. É uma ideia que não me sai da cabeça, talvez porque foi-me lá colocada quando eu era demasiado pequeno, homo sapiens sapiens ainda sem nenhum sapiens. E o nada não me sai da cabeça.

O diabo a quatro – diziam – há de vir pela ribeira abaixo e vai dar cabo de toda a gente, vai destruir tudo, não vai sobrar nada nem ninguém para contar a história. Se não vier de cima para baixo – diziam – então há de vir de baixo para cima, com o mar todo atrás dele, ondas do tamanho das igrejas e do inferno, e a gente vai morrer afogados no meio dos peixes.

E eu ali a ouvir isto, eu menino com os olhos arregalados, muito atento, a ouvir as pessoas dizer, sem dó nem piedade, só vai escapar quem conseguir fugir para o Pico Ruivo, mas o problema é que lá em cima não há espaço para todos, aquilo é como uma pirâmide e no topo das pirâmides, sejam de pedra ou sociais, o espaço é sempre exíguo e quem lá chega primeiro não quer perder o lugar, luta por ele, desumaniza-se, empurra os outros para a tragédia, pelo abismo abaixo, que se lixem, que se lixem.

O diabo a quatro era o apocalipse, só podia ser, e era também os quatro cavaleiros reunidos num único, informe, brutal, e todas aquelas histórias – percebi mais tarde – consistiam numa interpretação desvairada da Revelação e do capítulo 24 de São Mateus, o princípio das dores, a época da agonia antes do juízo final, o horror, a loucura...

– Vai-se morrer todos! – Diziam. – Não semos nada!

Puta que pariu o diabo a quatro! Agora vejo que ele não reconhece idades nem graus académicos nem classes sociais, ama a todos por igual e faz o mal.

Vinha eu no domingo de manhã pelo caminho a pensar nisto, no diabo a quatro, a pensar no incrível que foi ter-me feito ao mundo e às viagens sem medo de nada, movido por um apelo selvagem, aquele mergulho em África, cinco anos nas funduras de Moçambique, o deslumbramento, a falta de ar e de dinheiro, porra, aquilo é que foi vida e liberdade, pelo menos pareceu-me ser vida e liberdade, mas eu não percebo nada disso.

Sentei-me num banco no Largo do Colégio, diante da igreja, onde decorria uma missa, e pensava na ruína do império que me gerou. Já morreram quase todos, quase todos, mas ainda sobra alguma velhice, doença, demência, casas tortas, mato, uma certa derrota, uma certa esperança também – talvez um dia eu tenha força para erguer tudo de novo outra vez.

Um casal de vagabundos atravessou a praça e a mulher disse ao companheiro:

– Se a terra abrir, a gente morre todos!

Lá do fundo, veio a voz do padre, a dizer aos fiéis:

– O ser humano é fraco e frágil.

E eu fiquei ali a pensar não semos nada. Posso usar o penteado que quiser e o cabelo do tamanho que me aprouver, posso vestir a roupa que me apetecer, impecável ou esfarrapada, posso andar com barba ou sem ela, bem arranjadinha ou esgrouviada, posso calçar botas, sapatos de verniz ou chinelos de pata rapada, posso encher o peito como um pavão, ser cagão, ou então galinha depenada, meio frango assado, merda e meia de gente, posso ser um indivíduo culto, um poeta muito sensível, homem sábio, científico, brutamontes também, posso ser um bêbado das tascas, um drogado da rua, um sem-abrigo nojento, posso estar cheio de papel ou teso como sempre, e por aí adiante, posso ser o que sou, o que pareço e sobretudo os seus opostos do fim ao infinito de cada um, na verdade sou nada.

No fim, se tiver tempo, hei de dizer adeus aos que amei e aos que me amaram também. E depois, tenho a certeza, fecharei os olhos convencido de que toda a minha alegria e todo o meu sofrimento foram apenas sorrisos ao vento e “lágrimas na chuva”.