Por causa de um sorriso

Não sei como se chama [hei de perguntar-lhe, um dia destes], mas acende-me as manhãs com um sorriso de quem está bem com tudo: com o sol e com a chuva, com o vento que lhe rouba as folhas que tenta varrer, porque é esse o seu trabalho.

No princípio, sorria, apenas. E obrigava-me a limpar o resto do sono dos olhos e a enfrentar o dia com o coração mais leve e a devolver-lhe o sorriso. Aos poucos, fomos libertando a palavra: bom dia, bom trabalho, está frio, está calor, coisas de nada que vão aquecendo o coração, coisas de nada que podem definir o caminho de um dia inteiro.

Não sei absolutamente nada da vida dela. Sei que é funcionária da Câmara, que contribui para que aquela (e outra) rua(s) estejam mais limpas; sei que o seu sorriso chega a ser comovente, na simplicidade com que o oferece a quem tem tempo, na correria das manhãs, de olhar para ele.

Serve este texto de homenagem a essa senhora que me obriga a pronunciar uma das palavras mais bonitas que eu conheço, “obrigada!”, pelo simples motivo de me desejar (sem me conhecer, nem saber o meu nome) um dia feliz.

Serve este texto para lembrar o poder das coisas simples, dos gestos delicados, das palavras pequenas e dos sorrisos que se oferecem, apenas porque se tem luz por dentro. Esta senhora é assim: tem luz por dentro e tem a simplicidade de a deixar iluminar o mundo que a rodeia. E deixa-me a pensar em mim e em tanta gente que, como eu, terá certamente uma vida mais fácil, um trabalho mais apaixonante, um modo mais intelectual de entender o mundo, e não consegue abrir um sorriso ou dizer bom dia ou obrigada ou.

Serve este texto para lembrar a importância de um sorriso. Não custa nada. Mas acende tantas esperanças no coração de um dia. E serve, também, para dizer à senhora que me sorri, todas as manhãs, quando vou a caminho do trabalho: Muito obrigada!