Cimeira da SADC debate grave e cruel ameaça de fome na Tanzânia

José Luís da Silva - Correspondente em Joanesburgo

Líderes regionais estão a preparar-se para a cimeira da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) a realizar na Tânzania com início agendado para a manhã do próximo sábado.

Esta é uma cimeira onde fazem face a um nível sem precedentes de uma grave e cruel ameaça de fome nesta região de África.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentação, mais de 2,5 milhões de zimbabuenses, que vivem uma vida de autêntico pauperismo, correm agora o risco iminente da fome enquanto aproximadamente outros 5 milhões, que representam um terço da população, têm necessidade premente de auxílio alimentar.

Em Harare, capital do Zimbabué, país que outrora foi considerado o “cesto do continente africano “ e uma das economias mais promissoras de África, encontra-se agora numa situação de autêntica mendicidade nunca dantes vista. As esperas são demoradas junto a poços comunais, a veios de água corrente e em poços artesianos com potabilidade duvidosa. Junto às estações de serviço a espera leva no mínimo três horas para adquirir combustível.

Não há empregos, não há eletricidade, não há água, não há serviços de saúde, medicamentos também não, não há alimentos. Nada funciona e não há nada, disse ao JM uma empregada de mesa (que pediu o anonimato) de um restaurante português em Joanesburgo que teme pela vida dos pais e irmãos. “No meu país, neste momento, é o lugar no mundo onde é mais caro para reabastecer um automóvel”, disse.

A enorme deterioração da economia, com a inflação agora a 175%, a escassez de alimentos de primeira necessidade, sem água nem energia, é uma realidade. De realçar que as crianças agora em férias escolares são as que mais sofrem em silêncio devido ao colapso da economia.

A situação agudiza-se diariamente. Vê-se junto às estações de autocarros em Joanesburgo ou em Pretória, que viajam para o Zimbabué, filas enormes de pessoas a enviar artigos básicos de alimentação para que os seus familiares possam sobreviver, numa nação em que a espiral da inflação sobe a cada hora e a moeda corrente desvaloriza constantemente. E é fácil notar que o governo não tem habilidade de travar a inflação e as desvalorização da moeda.

A administração pós-Mugabe vem fazendo face a greves, manifestações, tumultos, protestos constantes fazendo que as duas maiores cidades do país, Harare e Bulawayo, ficassem paralisadas.

Espera-se que os líderes regionais concebam uma estratégia de molde a colmatar o problema da segurança alimentar no Zimbabué, de forma especial para evitar a todo o custo outra eclosão de xenofobia contra naturais daquele país e preparar também para as mudanças climáticas levando em atenção os efeitos extremos, nomeadamente secas, que se têm tornado cada vez mais severas.