"Só quem é forte aguenta isto" na Venezuela, diz comerciante madeirense

Susy Lobato/Lusa

A comunidade portuguesa em El Junquito, a cerca de 30 quilómetros de Caracas, não desiste, aguarda uma mudança na Venezuela, resistindo às dificuldades.

Admite que as portas do comércio estão abertas só para passar o tempo.

João Lopes, natural do Faial, em Santana, dono de um supermercado na rua principal, testemunha, à Lusa, isso mesmo. E repete em cada frase: "Eu adoro este País".

"Fome não passo mas isto não está nada bom. Esperamos que isto um dia mude e a Venezuela volte a ser como foi, ou melhor".

Enquanto conversa com a equipa de reportagem da Lusa, não entra uma única pessoa. Diz que pode estar assim horas. Metade das prateleiras estão vazias. Lembra que tudo começou a piorar com a presidência de Nicolás Maduro. "Até aí as coisas andavam, os preços eram razoáveis. Hoje em dia, manter um negócio..."

Mantém a porta aberta porquê? "Para estar aqui nem que seja a passar o tempo. É triste. Mas só quem é forte aguenta isto".

No entanto, João Lopes mantém a fé. Diz-se convencido de que a Venezuela voltará "a ser como era ou talvez melhor do que era".

Quando é questionado sobre o preço de uma lata de Cerelac que tem ai seu lado, diz revoltado: "Esta lata tem 400 gramas e custa 44 mil bolívares. Um ordenado mensal não dá para pagar isto. Mas falta o leite e tudo mais que uma criança precisa. Como vão criar os miúdos?"

Em relação aos venezuelanos diz que em parte nenhuma do mundo um povo aguentaria o que este povo está a passar.

El Junquito já foi foi um destino turístico muito concorrido. Todos dizem que era normal haver filas de carros a atravessar o centro da povoação, em busca de petiscos (famosas parrillas - carnes fritas) e uma atmosfera de montanha mais agradável.

Sexta-feira estava tudo muito diferente. Comércio quase todo deserto, a estrada principal cheia de esgoto, cheirava mal e com empregados de restaurantes muito agressivos a meterem-se à frente do carro quase a obrigar as pessoas a irem ao seu estabelecimento, sinal do desespero.

Encontrar portugueses ou lusodescendentes na povoação não é difícil. A maioria é proveniente da Madeira e encontraram naquele ambiente de montanha alguma semelhança com as terras onde nasceram.