Diplomacia portuguesa homenageia vítimas de violência na África do Sul

José Luís da Silva, correspondente em Joanesburgo (África do Sul)

Realizou-se, ontem, no Salão da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Brentwood Park, Benoni, Ekurhuleni com início às 10h (08h RAM), o Memorial Anual em homenagem à memória das vítimas as da violência criminal.

Atendendo às medidas de combate à Covid-19 a afluência de familiares e amigos enlutados e outras pessoas também foi bastante diminuta em relação aos anos anteriores, o que era esperado. O começo foi marcado com a deposição de coroas de flores simbolizando um presente concedido aos entes queridos ou amigos perecidos, neste caso vítimas da violência criminal. A Cônsul-geral de Portugal em Joanesburgo fez-se representar pela sua secretária Maria do Céu Silva e o Embaixador de Portugal representado pelo Encarregado de Negócios da Embaixada de Portugal em Pretória, Manuel Grainha do Vale o qual usou da palavra começando por se apresentar.

Felicitou o Fórum Português e a paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Benoni por provocarem esta paragem para recolhimento e reflexão.

“Cada vida ceifada é uma tragédia, cada vida ceifada é uma família destroçada, cada vida ceifada são várias outras que se têm de reconstruir. Pensamos naturalmente em todos os partiram, mas pensamos também nas viúvas que ficaram precarizadas, nos filhos que ficaram sem os seus pais, nos negócios que ficaram sem rumo, nos mais velhos que ficaram desapoiados. Temos infelizmente tudo isto na nossa comunidade”.

Por isto, Manuel Grainha do Vale considera importante “juntarmo-nos enquanto comunidade portuguesa na África do Sul para pensarmos nos que partiram e no ano que se pode fazer para ajudar os que ficam depois de uma tal tragédia”.

“Esse diálogo pode ser incentivado com momentos de paragem como esta cerimónia, hoje e aqui. É um caminho para uma resposta. Outro caminho de resposta prende-se com a própria África do Sul. Este país tem acolhido bem a nossa comunidade, mas tem profundos problemas e sofre duma violência endémica. Mas a África do Sul tem mostrado também a vontade de responder aos seus problemas: tivemos em julho os tumultos np Gauteng e Kwazulu-Natal, mas tivemos agora a resposta democrática com a eleições locais. E no momento dos tumultos, em julho, foi também claro que a população na sua globalidade resistiu à tentativa de insurreição que foi orquestrada. Lamentamos as vítimas, mas felizmente não contamos nenhuma entre os nossos”, enaltece.

“Lamentamos as elevadas perdas nalguns negócios de portugueses que temos acompanhado. Vemos que a pouco e pouco, as zonas e os estabelecimentos saqueados têm vindo a reerguer-se, incluindo os dos portugueses, contribuindo para a retoma neste país. Fazê-lo, é também uma forma de resposta aos problemas com que nos deparamos. Prestamos também a nossa homenagem aos portugueses na África do Sul, que pelo seu esforço contribuem para melhoria da vida neste país. Juntos iremos mais longe”, concluiu.

O porta-voz oficial do Fórum Português Marco Daniel Antunes Martins, antes do encerramento desta cerimónia, em nome da organização fez uma breve alocução dizendo: “Embora o crime continue desenfreadamente na África do Sul, muitos de nós, apenas sentimos isso à distância. As pessoas que realmente são as vítimas e os que realmente mais sofrem da criminalidade violenta, são muito frequentemente esquecidas, deixadas para trás”.

Marco Daniel lamenta que “o rapazito que ao brincar caiu no parque infantil, jamais saberá que a sua mãe o abraçou e beijou para que tudo fique bem”.

“A mulher que tem de caminhar no corredor da igreja, sozinha, no dia do seu matrimónio, pela simples razão de que o seu pai já cá não está. A esposa que tem dois empregos para poder pagar as suas contas porque o marido lhe foi tirado. O marido que caminha pelas sombras da solidão, agora que o sol da sua vida, partiu, está defunta. Hoje honramos todas aquelas pessoas que deixaram alguém para atrás. Mas mais do que isso, hoje, damos-lhes voz. Não é somente uma voz qualquer, não, mas sim a voz da Comunidade Portuguesa, a voz que não ficará estéril ou sossegada. Não, enquanto continuar esta insensatez. O Fórum português apresenta a todo e qualquer membro da nossa comunidade que tenha sofrido, e continue a sofrer com o perecimento dos seus entes queridos. Lembrem-se, que têm uma voz, que não estão desacompanhados, não estão sozinhos”, remata.

Esta homenagem hoje rendida, uma vez mais deu azo a exteriorização de sentimentos e fácil de verificar sem dificuldade em muitas faces o semblante da tristeza, compunção e compreensivelmente de revolta, de azedume e também de resignação numa mescla de emoções reprimidas, porque homicídios insensatos que atassalharam os seus corações e destroçaram as suas almas e pior, nutrem um sentimento de abandono que exprimem no seu vocabulário simples e próprio, tentando enroupar as lágrimas que teimam em correr nas suas faces. São as marcas deixadas pelos hediondos delinquentes da violência criminal que fizeram dos corpos do pai ou da mãe, do avô ou do avô, do noivo ou da noiva, do marido ou da esposa, locais do crime, assassinando desapiadadamente gente inocente.