Venezuela vive em Estado paralelo com objetivo de manter a corrupção governamental

A organização Transparência e Integridade considerou hoje que a Venezuela vive numa espécie de Estado paralelo com contornos ditatoriais, que pretende perpetuar a vasta corrupção que já existia nos círculos do poder.

“Nós vínhamos verificando que a Venezuela, antes mesmo desta crise ter-se tornado tão grave, já era um país com problemas estruturais de grande corrupção, eu diria mesmo de corrupção desenfreada”, declarou à agência Lusa João Paulo Batalha, o diretor-executivo da Transparência e Integridade, Associação Cívica.

Todas estas manobras do Governo venezuelano visam precisamente, segundo Batalha, “dar ao Presidente um poder desmesurado, antidemocrático, para poder continuar a fazer os seus negócios sujos e proteger este núcleo de corrupção que se tinha instalado na cúpula do Estado”.

De acordo com Batalha, a Venezuela é “um dos países com os piores registos em matéria de corrupção e onde já se via uma tendência bastante forte para o Governo e os responsáveis governamentais patrocinarem o roubo dos recursos públicos”.

Dados divulgados em janeiro pela organização não-governamental anticorrupção Transparência Internacional, colocam a Venezuela como o país mais corrupto da América Latina, ocupando o 166.º lugar.

A classificação faz parte do Índice de Perceção da Corrupção, que inclui uma listagem de 176 países, em que a última posição, a de país mais corrupto, é ocupada pela Somália.

“À medida que a contestação a este estado de coisas foi crescendo, o que nós vimos foi o aumento da repressão e da violência política por parte do Governo”, referiu.

Para João Paulo Batalha, toda esta situação culminou numa espécie de “montagem de um Estado paralelo com contornos ditatoriais” através da eleição da Assembleia Constituinte.

A 30 de julho, foi eleita uma nova Assembleia Constituinte, convocada pelo Presidente Nicolás Maduro e boicotada pela oposição.

A Venezuela atravessa uma grave crise política, com manifestações quase diárias contra o Presidente Maduro e que em quatro meses provocaram mais de 120 mortos.

O diretor executivo da Transparência também lamentou a demissão da procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega, e o aumento da repressão aos manifestantes contrários à Assembleia Constituinte.

“Isto é obviamente preocupante e tem merecido, e bem, a condenação da comunidade internacional, que tem de ser exigente e dura com este regime para tentar, tanto quanto possível, impor o regresso à normalidade democrática, que neste momento está completamente afastada na Venezuela”, declarou.

“Eu acho que nós ainda não podemos dar como consumada esta montagem de um Estado paralelo. A oposição continua ativa, há protestos nas ruas, os cidadãos não querem esta solução (Assembleia Constituinte). Tem havido pronunciamento das instâncias internacionais, que devem continuar”, indicou.

Para o responsável, a pressão sobre o Governo venezuelano deve persistir para que o atual quadro possa ser revertido.

“Esta Assembleia Constituinte deve ser pura e simplesmente extinta, porque na verdade não foi legitimamente criada, e que rapidamente crie-se condições para a realização de eleições e uma clarificação da situação política na Venezuela, que não pode continuar nesta espiral ascendente, que se tem manifestado na violência do regime contra os seus cidadãos” avaliou.