Morto e desmembrado na véspera do casamento

O saudita Jamal Khashoggi, um dos mais proeminentes jornalistas e pensadores do mundo árabe, devia ter casado na quarta-feira da semana passada.

Na véspera, entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul para ir levantar um documento necessário para a cerimónia. À porta, ficou a noiva, Hatice Cengiz, que esperou onze horas por Khashoggi e regressou no dia seguinte, sem nunca mais o encontrar.

A acreditar no que membros dos serviços de segurança turcos disseram ao jornal The New York Times, à agência Reuters e a vários jornais turcos, Khashoggi foi assassinado nas duas horas e meia a seguir a entrar no consultado e o seu corpo terá sido desmembrado ali mesmo. “É como no [filme] Pulp Fiction”, afirma um “alto responsável da segurança turca” citado pelo diário de Nova Iorque.

De acordo com o relato que resulta das afirmações destes responsáveis turcos, polícias e membros dos serviços secretos, e das informações avançadas por media turcos, Khashoggi foi morto por uma equipa formada por 15 agentes sauditas que aterraram em Istambul divididos em dois aviões (de uma companhia que costuma trabalhar com a família real) ao longo do dia do desaparecimento. Todos abandonaram a Turquia horas depois.

O Presidente norte-americano declarou hoje que os Estados Unidos "exigem" respostas da Arábia Saudita sobre o desaparecimento do jornalista crítico do regime saudita que as autoridades turcas dizem ter sido morto no consulado do seu país em Istambul.

Donald Trump indicou que tenciona convidar para ir à Casa Branca a noiva de Jamal Khashoggi, o jornalista do Washington Post que não é visto desde que entrou no consulado saudita em Istambul, a 02 de outubro, para pedir a documentação necessária para o seu casamento.

Segundo a polícia turca, Khashoggi não chegou a sair do edifício, mas Riade afirma que saiu.

Vários membros do Congresso têm insistido nos últimos dias para que a Administração Trump investigue o desaparecimento do repórter.

Khashoggi tinha aparentemente atraído a ira do Governo saudita, que se tornou um aliado próximo dos Estados Unidos sob a Presidência Trump, deixando agora a Administração norte-americana numa posição delicada.

Trump disse à imprensa na Sala Oval que telefonou à noiva, Hatice Cengiz, e que ninguém sabe exatamente o que aconteceu, tendo manifestado esperança de que Khashoggi não esteja morto.

O chefe de Estado norte-americano disse também que falou com os sauditas sobre aquilo a que chamou "uma situação má", mas não revelou pormenores sobre as conversas que manteve.

A Arábia Saudita nega qualquer envolvimento no desaparecimento de Khashoggi.

Os congressistas norte-americanos indignados com esta situação provavelmente não conseguirão que a Administração se afaste do príncipe saudita no poder, Mohammed bin Salman, mas poderão levantar obstáculos à venda de armas, que requer a sua aprovação, e exigir que os Estados Unidos recuem no apoio à campanha militar saudita contra os rebeldes apoiados pelo Irão no Iémen.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês anunciou hoje estar "em contacto com as autoridades sauditas" sobre o desaparecimento do jornalista saudita em Istambul e reiterou o desejo de que "se faça luz" neste caso.

Elementos que sustentam a tese do desaparecimento forçado ou do assassínio do jornalista em Istambul por agentes do seu país foram hoje revelados pela imprensa turca, enquanto a sua noiva pediu a ajuda de Trump.

As televisões turcas difundiram imagens de videovigilância mostrando a entrada no consulado de Jamal Khashoggi e da equipa suspeita de ser responsável pelo seu desaparecimento.

Referindo-se à investigação em curso, fontes turcas afirmaram durante o passado fim de semana que Khashoggi foi assassinado no consulado, mas alguns meios de comunicação aventaram na terça-feira a hipótese de ele ter sido sequestrado e levado para a Arábia Saudita, depois de Riade ter veementemente negado a tese de homicídio.