O valor supremo do dinheiro

Fui dar um passeio pela cidade, embora o tempo apelasse ao recolhimento. Não estava muito frio, é verdade, mas chuviscava de vez em quando e o vento era agreste. O céu estava carregado de nuvens e o mar agitado e sombrio. Tinham passado vinte dias desde que chegara de África, com a esperança de matar saudades e ser feliz. Uma esperança infundada, pois desde o primeiro dia só contava os que faltavam para ir embora. 
O passeio revelou-se um desastre. Semeou-me no espírito uma inquietação indefinida, que foi crescendo pouco a pouco e enredou-me num labirinto horrível e cansativo. Desorientado, entrei num bar e bebi três cervejas, antes de reencontrar a serenidade. 
E foi então que recordei uma conversa com a minha tia Teresa. 
– Tu não podes estar alegre porque és triste – disse-me ela.
– É o dinheiro, tia. Estou muito preocupado com o dinheiro.
– Ainda tens algum.
– Não chega, tia. Não vai chegar.
– Pensa que há de chegar. O dinheiro aparece e desaparece.
Depois, a tia Teresa, que era uma pessoa muito sossegada e prática, reforçou o seu otimismo de um modo sinistro:
– Pensa que a qualquer momento pode acontecer uma morte. 
Isto passou-se em janeiro de 2010, pouco antes de regressar a Moçambique. 
A minha tia Teresa morreu em março desse ano, no primeiro dia de primavera.
E lá estava eu outra vez em África… 
Na capital da Zambézia, esperei por uma boleia para o norte. 
Um dia, apareceu-me pela frente um tipo todo sujo e esfarrapado a perguntar se eu conhecia um certo padre italiano, que também era médico. Eu disse que sim, porque de facto conhecia-o, e o homem ficou muito feliz por isso. 
– Estou aqui para falar com ele – disse-me.
Depois, contou-me que morava muito longe e que só voltaria para casa no dia seguinte, pois não podia regressar sem antes falar com o tal padre-médico. Logo de seguida, perguntou-me se, por acaso, eu não tinha algum dinheirinho que lhe desse para comer qualquer coisa.
– Estou cheio de fome, patrão! – Queixou-se.
Eu esquivei-me, sugerindo que talvez fosse melhor pedir ao padre. E dei-lhe uma palmada amigável no ombro. Nisto, o homem informou-me, sem mais nem menos, que o padre o tinha curado da lepra. 
– Ah, sim! – Exclamei. 
– Sim, sim! – Disse o homem. 
E mostrou-me as mãos, umas mãos roxas e mirradas, onde todos os dedos tinham sido amputados, uns mais acima, outros mais abaixo. Eu fiquei profundamente impressionado com aquilo, pasmado, sem saber o que dizer. Lembrei-me, então, da minha tia Teresa e abriu-se-me um buraco na alma, onde ainda mergulho à procura de conforto quando a falta de dinheiro e a incerteza do futuro me apoquentam. 
– Ele também cortou os dedos dos pés – acrescentou o homem, apontando os sapatos rasgados. – Cortou tudo, mas eu fiquei curado!