Deus também viajou no Isuzu

Um motorista do Isuzu passou a maior parte da viagem calado, mas a certa altura contou-me que um dia tinha matado uma pessoa na estrada. Nesse dia, ele vinha a conduzir muito normalmente, quando do meio do capim surgiu um homem e bateu no lado esquerdo do carro, caiu e rebolou no asfalto, espalhando sangue por todo lado.

– Levei o homem para o hospital –, disse o motorista. – Quando cheguei ao hospital, o homem ainda estava vivo, mas depois morreu.

Nisto, apareceram dois polícias e levaram o motorista para a esquadra.

– Nunca passei tão mal na minha vida! – Disse-me ele, explicando que ficou encarcerado quatro dias sem água, sem casa de banho, sem comida, sem nada. Além disso, o espaço era exíguo e as chapas de zinco do teto aqueceram tanto que ele pensou que ia fritar lá dentro.

– Tive de pedir com muita força para me levarem para a cadeia municipal, porque eu ia mesmo morrer ali! – Contou-me.

​Então, levaram-no para a cadeia municipal, que era muito melhor, tinha casas de banhos e chuveiros e preparavam comida e os detidos podiam passear no pátio.

Depois, o motorista do Isuzu foi julgado e condenado a pagar uma indemnização à família do falecido, pelo que tudo se resolveu e ele voltou ao emprego, lá na missão onde eu também trabalhava, na Alta Zambézia.

Eu lembrava-me perfeitamente deste caso, ocorrido há coisa de dois anos, talvez em agosto de 2008…

– Foi em outubro – esclareceu ele.

​Eu pus-me a pensar que as datas são fundamentais na organização da vida, pois tudo acontece no tempo. Mesmo as coisas mais misteriosas e imateriais, as que atravessam a luz e a escuridão do pensamento ou as que ali residem e as que dali se precipitam no vazio, mesmo essas, precisam de um tempo para existir.

Na altura, esta reflexão pareceu-me adequada à viagem em curso, que aconteceu a 21 de janeiro de 2010, na província da Zambézia, em Moçambique.

De repente, a noite entrou em cena e a viatura num troço cheio de buracos. Os faróis eram fracos e pouco iluminavam a estrada e o motorista disse, cheio de poesia, que as luzes não estavam a ver o caminho, ao que eu retorqui, muito pragmático, que o Isuzu estava mesmo velho e cego.

O motorista abrandou a marcha e disse que era melhor irmos devagar para evitar entrar no mato, coisa que podia muito bem acontecer a qualquer momento. Ao mesmo tempo, passámos por um camião tombado do lado direito da estrada.

– Aquele adormeceu! – Ironizou o motorista.

Eu agarrei a pega da porta e confirmei a firmeza do cinto de segurança, mas isto não evitou a súbita sensação de susto nem o terror do acidente, da invalidez, da morte, do fim absoluto. Por outro lado, também não apagou a expectativa de luz e vida na minha alma e muito menos o desejo de imortalidade. E, por um segundo, acreditei em Deus, porque Deus é a combinação perfeita de medo e esperança no meu coração, ou na minha cabeça, ou no meu estômago, ou sei lá onde em mim...